Humanos que viveram entre 1,3 milhão e 2,6 milhões de anos atrás poderiam usar ferramentas Tecnologia, Arqueologia, Fósseis, Fóssil CNN Brasil
Os primeiros fósseis de mão conhecidos de um parente humano extinto foram descobertos no Quênia, revelando uma espécie com destreza inesperada e um aperto semelhante ao de um gorila.
Os ossos da mão, que foram descobertos junto com fósseis de crânio e dentes, estão levando os pesquisadores a acreditar que esses primeiros humanos podem ter sido capazes de usar ferramentas de pedra.
Paranthropus boisei foi anteriormente identificado apenas por seu crânio distinto e grandes dentes, com molares até quatro vezes maiores que os dos humanos modernos, portanto os pesquisadores não sabiam como era o resto do corpo nem como o hominídeo interagia com seu ambiente.
Eles, no entanto, teorizaram sobre os enormes músculos mastigatórios que sua mandíbula teria e seus hábitos alimentares, o que lhe rendeu o apelido de “Homem Quebra-Nozes”.
Os ossos da mão, notavelmente bem preservados, incluem um polegar longo, dedos retos e um dedo mínimo móvel que teria permitido à espécie formar um aperto poderoso, semelhante à forma como os humanos modernos seguram um martelo.
Outras características, como o formato largo dos ossos dos dedos, no entanto, se assemelham bastante às de um gorila.
O esqueleto parcial, descoberto em Koobi Fora, um sítio na borda oriental do Lago Turkana, é estimado em pouco mais de 1,52 milhão de anos.
Os fósseis de dentes e crânio corresponderam a espécimes de P. boisei previamente estudados, enquanto os ossos da mão e do pé se mostraram únicos entre os hominídeos já analisados — termo que se refere a todas as espécies que surgiram após a separação genética dos ancestrais dos grandes símios há 6 a 7 milhões de anos.
“Esta é a primeira vez que podemos vincular com confiança o Paranthropus boisei a ossos específicos de mão e pé”, disse Carrie Mongle, paleoantropóloga e professora assistente da Stony Brook University, em Nova York. Mongle é a autora principal de um estudo sobre os fósseis publicado na revista Nature nesta quarta-feira (15).
A mão foi “bastante inesperada”, segundo Tracy Kivell, diretora do departamento de origens humanas do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig, Alemanha.
“É claramente a mão de um ancestral humano, mas também tem características que são notavelmente semelhantes às dos gorilas, o que é surpreendente”, disse Kivell por e-mail.
“Nenhum outro hominídeo que conhecemos possui uma morfologia de mão tão semelhante à de um gorila, o que amplia muito nossa perspectiva sobre o que é ‘possível’ dentro da história evolutiva humana do uso das mãos”, acrescentou. Kivell coassinou um comentário publicado junto ao estudo, mas não participou da pesquisa.

Questão-chave
P. boisei viveu no leste da África entre 1,3 milhão e 2,6 milhões de anos atrás, coexistindo com pelo menos outras três espécies de hominídeos: Homo habilis, Homo rudolfensis e Homo erectus.
Alguns pesquisadores levantaram a hipótese de que apenas espécies do gênero Homo tinham a capacidade de fabricar ferramentas de pedra, embora descobertas recentes tenham enfraquecido essa suposição.
Artefatos de pedra descobertos no Quênia, datando de 2,9 milhões de anos, sugerem que o uso de ferramentas era mais disseminado na árvore genealógica dos hominídeos do que se pensava.
Os hominídeos incluem espécies dentro do gênero Homo, como o nosso próprio Homo sapiens; espécies extintas mais recentemente, como os neandertais, que desapareceram há 40.000 anos; espécies primitivas de Homo, como Homo erectus; e espécies mais distantes, como Australopithecus afarensis, representada pelo famoso esqueleto Lucy, da Etiópia, com 3,2 milhões de anos.
Mongle disse que as proporções das mãos de P. boisei teriam permitido a manipulação de ferramentas de pedra tão bem quanto as outras espécies de Homo que viviam na África naquela época.
“Este artigo tem o cuidado de não afirmar que o Paranthropus fabricava e usava ferramentas, mas sim de dizer que essencialmente não há nada na anatomia da mão que impediria isso”, disse Ryan McRae, paleoantropólogo do Museu Nacional de História Natural Smithsonian, em Washington, DC, à CNN por e-mail.
“Sem uma prova definitiva de ferramentas de pedra encontradas em uma mão fossilizada, ou ferramentas encontradas em um sítio com apenas uma espécie de hominídeo representada, talvez nunca saibamos com certeza quem fabricava ou não essas ferramentas, mas este artigo é um grande passo na hipótese do ‘Paranthropus fabricante de ferramentas’.”
Os humanos posteriores, como os neandertais e o Homo sapiens, tinham uma anatomia de punho diferente, e P. boisei, junto com seus contemporâneos, provavelmente não seria capaz de unir os dedos com precisão, observou o estudo.
Os fósseis da mão também sugerem que P. boisei compartilhava com os gorilas a capacidade de agarrar e arrancar plantas difíceis de comer, removendo as partes indigestas com as mãos, segundo a pesquisa.
Embora suas mãos poderosas indiquem que teria sido um bom escalador, os pés do hominídeo possuíam arcos, o que permitia um movimento eficiente. Isso significa que ele era inequivocamente adaptado para caminhar ereto sobre duas pernas, disse Mongle.
“Devido à morfologia combinada da mão e do pé, os autores sugerem que essa espécie provavelmente não era arbórea (não escalava em árvores), mas que qualquer semelhança com os gorilas nas mãos provavelmente se deve à forma como as usavam para processar alimentos duros. Isso faz sentido”, acrescentou McRae, que não participou do estudo.

Descobertas fósseis multigeracionais
Os fósseis foram encontrados durante escavações entre 2019 e 2021 por uma equipe liderada pela coautora Louise Leakey.
Na década de 1950, seus avós, os renomados paleoantropólogos Louis Leakey e Mary Leakey, encontraram o primeiro crânio de P. boisei no que hoje é a Tanzânia e lhe deram o apelido de “Homem Quebra-Nozes”.
No entanto, marcas de desgaste nos dentes da espécie indicam que, em vez de quebrar alimentos duros como nozes, ele mastigava e triturava alimentos resistentes como tubérculos e raízes para sobreviver.
Os fósseis mais recentes emergiram de uma camada de silte arenoso logo acima de uma extraordinária trilha de pegadas de hominídeos tornada pública no ano passado.
Impressas na lama macia, as pegadas foram atribuídas a P. boisei e Homo erectus, levando os pesquisadores a acreditar que as duas espécies se cruzaram e puderam viver como vizinhas, e não como competidoras, no mesmo habitat.
Mongle disse que as duas espécies provavelmente ocupavam nichos ecológicos diferentes, mas, com base no que se sabe sobre o rosto, os dentes, as mandíbulas e agora as mãos do hominídeo, P. boisei provavelmente seguia uma dieta especializada em alimentos vegetais, como gramíneas.
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