O mundo parece ter começado o ano com um pé qualquer, esquerdo ou direito, como se prefira. O fato é que proliferam análises marcadas por desesperança, retração e pelo desejo de voltar-se apenas para si, para o individual, como estratégia diante de um cenário instável, tenso e imprevisível.
Essa reação é compreensível. Mas ela também carrega um risco silencioso: o de naturalizarmos a paralisia, o afastamento do espaço público e a ideia de que nada do que fazemos, coletivamente, é capaz de produzir mudança relevante.
Um princípio basilar para a vida pública é um forte senso de responsabilidade coletiva, em que o “nós” não é subordinado ao “eu”, em que direitos caminham junto com deveres, e em que a confiança institucional é sustentada por comportamentos cotidianos de cooperação, compromisso cívico e respeito às regras do jogo democrático.
Quando esse pacto coletivo se enfraquece e o individual passa a se sobrepor ao comum, o espaço público perde densidade, as políticas perdem legitimidade e a capacidade de produzir bem-estar de forma sustentável se fragiliza.
É justamente nesses contextos que a coragem precisa ser ressignificada. Não como bravata retórica, mas como a decisão de agir e de sustentar agendas difíceis quando o ambiente é ruidoso, os incentivos são contraditórios e os resultados não são imediatos.
O poeta espanhol Antonio Machado sintetiza isso com precisão e simplicidade ao afirmar que “caminhante, não há caminho, faz-se o caminho ao andar”. O futuro não se apresenta como um roteiro pronto. Ele é construído pelas decisões que tomamos no presente, mesmo quando o terreno é instável e as tensões são reais.
Nesse cenário, a sociedade civil tem um papel insubstituível. São organizações, movimentos, redes e lideranças que, todos os dias, constroem pontes entre conhecimento, política e interesse público, qualificam o debate e sustentam agendas de longo prazo para o país, mesmo – e principalmente – quando o ambiente é adverso. É também a partir do engajamento de cada brasileiro e brasileira que a democracia se fortalece e que a capacidade coletiva de transformação se renova.
No Movimento Pessoas à Frente, vivenciamos isso de forma muito concreta. Ao produzir evidências, formular propostas, dialogar com diferentes atores e sustentar uma agenda de modernização da gestão pública ancorada na valorização de quem faz o dia a dia do setor público, reafirmamos diariamente que cidadania não é abstração. É escolha, trabalho persistente, construção institucional e compromisso com o interesse público.
Essa visão de futuro parte de uma convicção nítida: não há desenvolvimento sustentável, redução de desigualdades ou fortalecimento democrático sem um serviço público capaz, profissional, inovador, orientado por evidências e liderado por pessoas preparadas para tomar as melhores decisões públicas. Investir em políticas de gestão de pessoas é, portanto, uma estratégia de país.
Modernizar o Estado, fortalecer as instituições e ampliar a capacidade de entrega de políticas públicas exige atravessar disputas, lidar com interesses divergentes e sustentar escolhas ao longo do tempo. Não há atalhos. Há responsabilidade.
Esse debate ganha ainda mais relevância em um ano eleitoral. As escolhas que faremos nas urnas precisarão considerar a capacidade real de quem será eleito de selecionar os melhores profissionais para liderar equipes, gerir recursos, estruturar políticas e garantir serviços públicos com qualidade para a sociedade.
Em um ano de escolhas decisivas, coragem é não recuar do compromisso com o coletivo. É sustentar, como sociedade, a exigência por lideranças públicas preparadas, instituições fortes e políticas públicas capazes de melhorar concretamente a vida das pessoas. É exercer cidadania todos os dias, no voto, no debate, no controle social e na construção de soluções para um Brasil justo e desenvolvido. É isso que nos permite seguir caminhando.

