Denúncia do influencer Felca sobre exploração infantil mobilizou o debate na política e no esporte Futebol, CNN Esportes, Felca, Futebol brasileiro CNN Brasil
Lionel Messi deixou a Argentina aos 13 anos rumo ao Barcelona, da Espanha. O ex-palmeirense Endrick foi vendido do Real Madrid com 16 anos. Aos 12, Neymar visitou as instalações do clube merengue na expectativa de um possível contrato. Ele, porém, foi vendido para o Barcelona com 21 anos.
São todos casos de sucesso dentro de campo. Porém, a história nem sempre termina bem para crianças e adolescentes no futebol.
Em junho deste ano, o Ministério Público do Trabalho do Rio Grande do Sul realizou uma fiscalização em um centro de treinamento de atletas de futebol, na cidade de Portão. O resultado: 12 adolescentes foram afastados pela constatação de situação de trabalho infantil.
Segundo o MPT-RS, houve desrespeito às leis de proteção ao trabalho de adolescentes e às normas estabelecidas pela Lei Geral do Esporte. Os jovens foram expostos a uma rotina intensa de treinos sob avaliação constante de empresários, em um CT com estrutura irregular e ausentes da escola.
Ninguém foi preso, porém a justiça determinou a devolução dos jovens para suas respectivas famílias.

Clubes e empresários veem nesses jovens a oportunidade de retorno esportivo e financeiro, mas especialistas alertam que a pressão precoce pode comprometer o desenvolvimento físico e mental dos atletas.
E, num contexto de exploração infantil, a denúncia do influencer Felca gerou um debate público que chegou ao Congresso Nacional e resgatou a votação na Câmara dos Deputados de um projeto de lei sob a demanda de endurecer a punição às práticas criminosas. Há possibilidades, assim, de novas regras serem impostas para a atuação na formação de atletas de base no futebol. Sobre o tema, a CNN ouviu especialistas.
Para o doutor João Ricardo Cozac, psicólogo do esporte e presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte, a pressão pelo sonho de ascensão na carreira desde muito cedo pode gerar “quadros de ansiedade de performance, baixa tolerância à frustração e sintomas depressivos”.
Mauricio Corrêa da Veiga, auditor do STJD e advogado especialista em Direito Desportivo e Direito Trabalhista, entende que, para evitar casos de exploração infantil, “o maior desafio não é a ausência de normas, mas a efetividade da fiscalização e o compromisso dos clubes”.
A procuradora Luísa Carvalo Rodrigues, que é coordenadora da Coordinfância (Combate à Exploração do Trabalho de Crianças e Adolescentes), do Ministério Público do Trabalho de São Paulo, explicou que “o esporte pode ser um espaço de realização de direitos, mas para isso a legislação que protege crianças e adolescentes precisa ser cumprida rigorosamente, para que ele não se torne um espaço de violações e abusos.”

Ansiedade, frustação e depressão
O Dr. João Ricardo Cozac, psicólogo do esporte, afirma que a adolescência é uma fase crítica de construção da identidade, autonomia e autoestima. O crescimento, no entanto, é muitas vezes interrompido no ambiente de alto rendimento.
“É comum observar quadros de ansiedade de performance, baixa tolerância à frustração e sintomas depressivos. A rotina intensa de treinos e viagens pode afastar o jovem da escola, amigos e família, gerando um isolamento que causa um senso de vazio e dependência exclusiva do desempenho esportivo para a construção do valor pessoal”, relata.
Do ponto de vista jurídico, o advogado Mauricio Corrêa da Veiga aponta que, apesar da legislação brasileira ter avançado na proteção dos adolescentes, ainda há fragilidades que dificultam a execução da lei.
“Há uma série de requisitos a serem observados. O problema é que, na prática, ainda existem brechas. (…) O desafio é fiscalizar para evitar exploração desses jovens”, explica.
O auditor destaca que, mesmo com as normas, muitos jovens ainda enfrentam abandono escolar, sobrecarga física e emocional, e pressões que antecipam uma profissionalização precoce.
Para Luísa, a tensão gerada pela busca ao alto rendimento não é compatível com a fase de desenvolvimento físico e psicológico dos adolescentes.
“Muitas vezes eles são afastados das famílias, dos amigos, da convivência comunitária. Passam a viver em alojamentos precários, deixam de frequentar a escola e enfrentam a pressão mental por resultados incompatíveis com a idade. Isso gera consequências físicas e psicológicas graves, podendo até levar ao abandono do próprio esporte”, conta.
De quem é a responsabilidade?
“A responsabilidade é de todos os agentes envolvidos no desporto”, afirma Mauricio.
O especialista pontua que os clubes devem cumprir suas obrigações, as federações precisam aplicar sanções, e o poder público, via Ministério Público e Conselhos Tutelares, deve cobrar com mais rigor.
“Sem essa corresponsabilidade, o adolescente segue desprotegido e vulnerável.”
Ele também menciona que os empresários podem orientar a carreira, porém, quando atuam sem ética, acabam mercantilizando o adolescente.
“A lei exige agentes registrados, mas falta fiscalização e consciência das famílias”, destaca.
Segundo a procuradora Luísa, nem mesmo a concordância da família pode legitimar situações que violem direitos fundamentais.
“A anuência dos pais não é suficiente. Esses direitos de crianças e adolescentes são indisponíveis, não podem ser renunciados nem pelo próprio adolescente, nem por seus responsáveis legais.”
Soluções e precauções
Para proteger esses jovens atletas, o Dr. Cozac recomenda a institucionalização do cuidado psicológico nos clubes. Ele defende que a saúde mental deve ter a mesma prioridade que a preparação física e a nutrição, com psicólogos atuando de forma integral nas categorias de base.
“O psicólogo do esporte precisa atuar tanto no suporte clínico-preventivo quanto no treinamento mental e na educação socioemocional. É fundamental trabalhar com técnicas de manejo da ansiedade, construção de autoestima saudável e desenvolvimento da resiliência.”
O Dr. Cozac sugere o envolvimento das famílias no processo, orientando pais e responsáveis sobre expectativas realistas.
O advogado Mauricio também destaca a forte pressão dos pais, que depositam suas frustrações na esperança de uma carreira bem-sucedida dos filhos. Ele reforça a importância de educar e conscientizar os pais, para que o futebol seja um caminho de formação, não de exploração, e a família seja parceira nesse processo.
Neste mesmo sentido, João também argumenta que os clubes precisam rever o modelo de avaliação de talento.
“O corte precoce e massivo de adolescentes cria uma lógica cruel, em que milhares de jovens são descartados sem nenhum tipo de acolhimento. Uma política humanizada deve incluir planos de transição para os que não prosseguem no alto rendimento, oferecendo encaminhamentos educacionais, apoio psicológico e até projetos de reorientação profissional. Isso diminui a incidência de depressão pós-carreira e dá aos jovens a mensagem de que sua dignidade e futuro importam.”
Luísa defende que o caminho não está em criar novas normas, mas em aplicar com rigor a legislação já existente.
“O ideal seria o cumprimento efetivo da legislação já existente. As leis atuais preveem quais são as contratações adequadas e garantem direitos tanto na formação esportiva, com contrato específico, quanto na primeira contratação profissional a partir dos 16 anos.”
A procuradora enfatiza que o Ministério Público do Trabalho mantém atuação constante no tema e, em 2021, lançou a campanha Atletas Adolescentes – Dignidade ao nosso esporte, para reforçar que o esporte só pode ser um espaço positivo quando os direitos dos jovens são respeitados e garantidos.
Transição do adolescente ao adulto
A passagem das categorias de base para o futebol profissional é um dos momentos mais delicados da vida de um jovem atleta. Por isso, os especialistas defendem a criação de planos de transição.
Para o psicólogo João Cozac, os clubes precisam rever o modelo de avaliação de talento e criar estratégias para aqueles que não seguem no alto rendimento. A transição deve ser gradual, com acompanhamento multidisciplinar.
“Uma política humanizada deve incluir encaminhamentos educacionais, apoio psicológico e até projetos de reorientação profissional. Isso diminui a incidência de depressão pós-carreira e dá aos jovens a mensagem de que, independentemente do resultado, sua dignidade e futuro importam”, explica Cozac.
No campo institucional, o advogado Mauricio destaca a importância de políticas públicas integradas que garantam o acompanhamento multidisciplinar.
Para ele, é fundamental investir em programas de transição de carreira, evitando que o futebol se torne apenas um funil que forma poucos atletas e descarta milhares de jovens.
“O futebol não pode ser um funil que forma poucos atletas e abandona milhares de jovens: antes de jogadores, eles são cidadãos em desenvolvimento”, ressalta.
A procuradora Luísa destaca que o problema do trabalho infantil no esporte está justamente em acelerar artificialmente essa passagem da adolescência para a vida adulta.
“O trabalho infantil é também uma forma de adultização, porque pressiona crianças e adolescentes a se comportarem como adultos e assumirem responsabilidades que não lhes cabem.”
O que diz a lei?
A legislação brasileira estabelece uma série de mecanismos para proteger adolescentes que ingressam no esporte de alto rendimento.
“O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece a prioridade absoluta da proteção integral, enquanto a Lei Pelé (Lei n.º 9.615/1998) disciplina os contratos de formação a partir dos 14 anos, exigindo que os clubes assegurem escolaridade, assistência médica, psicológica e social”, explicou o advogado Mauricio Corrêa.
Luisa reforça que não é necessário criar novas normas, mas sim aplicar corretamente as que já existem para proteger adolescentes no esporte.
“O cenário ideal seria o cumprimento efetivo da legislação protetiva das infâncias e adolescentes e das normas trabalhistas, inclusive naquilo que diz respeito ao mundo esportivo e a sua relação com o trabalho.”
O descumprimento dessas normas pode gerar diferentes consequências.
No caso do ECA, há previsão de multas administrativas e até responsabilização criminal em situações graves. Já a Lei Pelé prevê responsabilização civil e trabalhista para a entidade, além da perda da condição de clube formador reconhecido pela CBF.
A Lei Geral do Esporte (Lei 14.597/2023) também reforça essas garantias, ao prever multas, perda de registro e até sanções desportivas, como restrições em competições oficiais, para clubes que não cumprirem suas obrigações.
Apesar das punições previstas, especialistas avaliam que ainda falta efetividade na aplicação.
“Seria importante criar mecanismos de responsabilização mais severos para clubes que descumprirem essas obrigações, inclusive com sanções desportivas”, afirma o advogado.
6 mil regastes no Brasil
Em junho, o Ministério do Trabalho e Emprego divulgou que, entre 2023 e abril de 2025, 6.372 crianças e adolescentes foram retiradas de situações de trabalho infantil em todo país. Em 74% dos casos, os explorados são meninos.
Não há um dado específico sobre o resgate de vítimas ligadas ao esporte. Segundo o governo, a maior parte é subjugada no setor do comércio varejista, agricultura e pecuária, setor de alimentação e oficinas de manutenção.
Denuncie!
O Ministério Público do Trabalho oferece um canal de denúncias contra exploração de trabalho infantil por meio do portal Sistema Ipê. Clique aqui para formalizar uma denúncia.

