O líder dos EUA anseia por um acordo, tanto porque vive de negociações quanto porque tenta se vender como um pacificador global na construção de seu legado Internacional, Donald Trump, EUA, Guerra da Ucrânia, Putin, Rússia, Ucrânia CNN Brasil
Avaliações otimistas de autoridades dos EUA estão impulsionando o mais recente esforço do presidente americano Donald Trump para encerrar a guerra na Ucrânia rumo a um teste decisivo e inevitável.
A Rússia aceitará algum acordo que a Ucrânia e seus parceiros europeus modifiquem para garantir sua soberania e segurança?
Trump anseia por um acordo, tanto porque vive de negociações quanto porque tenta se vender como um pacificador global na construção de seu legado.
Ele já demonstrou não se preocupar muito se um pacto final acabará recompensando o agressor, a Rússia, ou deixando os Estados europeus da OTAN temerosos com uma nova onda expansionista do Kremlin.
Após um dia de retórica esperançosa em Washington, Trump pareceu confirmar os temores de seus críticos ao sinalizar que a Rússia não seria obrigada a ceder muito nas negociações para encerrar uma guerra iniciada com uma invasão ilegal.
“Bem, eles estão fazendo concessões. A grande concessão é parar de lutar e não tomar mais terras”, disse Trump a repórteres na noite de terça-feira.
Como ele está novamente impondo o ritmo da situação, com um plano inicial que soava como algo escrito por Moscou, a Ucrânia não tem escolha senão acompanhar.
Mas Kiev tenta barrar condições que ameaçariam sua existência e sua capacidade de se defender após a guerra.
Aliados europeus
As nações europeias não querem se indispor com Trump, já que dependem dele para sua defesa e para comprar armas destinadas à Ucrânia.
Por isso, restou-lhes pouco mais do que seguir o padrão de sempre: elogiar o presidente enquanto trabalham para aparar ideias pró-Rússia que colocam em risco sua própria segurança.
Suas desconfianças em relação a Moscou se intensificam à medida que culpam a Rússia por uma onda de guerra híbrida com intrusões de drones, ataques cibernéticos, sabotagens e incidentes tensos no ar e no mar.
Mas, enquanto cresce a expectativa em Washington com sinais de que o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky deve em breve visitar Trump para discutir um acordo, obstáculos antigos, os mesmos que travaram esforços anteriores, voltam a surgir.
Trump conseguirá vender a Putin um acordo que Zelensky consiga aceitar, considerando as exigências russas para que a Ucrânia entregue territórios estratégicos que Moscou nem sequer controla?
No fim, a nova iniciativa de paz de Trump dependerá de algo simples: Putin quer mesmo fazer a paz?
Desde que invadiu a Ucrânia, há mais de três anos, não surgiu sinal algum disso.
Se nada mudar, outra pergunta ganhará urgência: por quanto tempo o líder americano tolerará esse ciclo de frustração antes de desistir completamente, o que seria uma vitória para Moscou?
Avanços recentes são positivos, mas não definitivos

A Casa Branca demonstrou grande otimismo na terça-feira (25) sobre a possibilidade de um acordo após dias de negociações na Europa e no Golfo envolvendo o secretário de Estado Marco Rubio, o secretário do Exército Daniel Driscoll e outros altos funcionários.
Trump comemorou “progresso tremendo” no refinamento de seu plano inicial de 28 pontos, amplamente criticado como uma lista de desejos russa.
Ele disse ter enviado seu enviado Steve Witkoff a Moscou para se reunir com Putin. O especialista do mercado imobiliário, agora diplomata, pode ser bem recebido, a julgar pela transcrição de uma ligação com um assessor de Putin na qual parece orientar os russos a bajularem Trump para obter aprovação de um plano “estilo Gaza”.
A transcrição, publicada pela Bloomberg, faz Witkoff soar tão conselheiro de Moscou quanto da Casa Branca.
Zelensky sugeriu que líderes europeus, que já agiram como espécie de “segurança diplomática” para ele , poderiam ser úteis em um encontro com Trump nos EUA.
O primeiro-ministro britânico Keir Starmer disse que a Ucrânia poderia aceitar grande parte da proposta norte-americana em sua forma atual.
Mas uma fonte ucraniana com conhecimento direto das negociações disse à CNN que disputas sérias permanecem, entre elas, a questão de ceder território não conquistado pela Rússia; os limites ao tamanho do exército ucraniano no pós-guerra; e a renúncia definitiva à entrada na OTAN.
Starmer deu a entender o mesmo: “A Ucrânia está mantendo a linha com coragem. E essa linha é a da sua soberania e sua defesa.”
O presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou que haverá um componente americano nas garantias de segurança propostas pela Europa após um acordo de paz.
Mas a Rússia sempre rejeitou isso, deixando dúvida sobre se o Ocidente não estaria apenas negociando consigo mesmo.
Clima em Washington pode estar superando o progresso real
A Casa Branca costuma apresentar avanços graduais como grandes vitórias de Trump.
Washington recorre a uma tática clássica em negociações de paz: criar a impressão de impulso, mesmo que ilusório, para manter a esperança viva e aumentar o custo diplomático para qualquer lado que deseje abandonar a mesa.
A primeira proposta de Trump, com 28 pontos, chocou a Europa.
Ela incluía exigências russas para que a Ucrânia entregasse territórios que ainda controla em Donetsk e Luhansk, além de renunciar à entrada na OTAN.
Sua iniciativa parecia oportunista em um momento de fraqueza de Zelensky, envolvido em um escândalo de corrupção e com forças russas avançando no campo de batalha, para impor à Ucrânia um desfecho injusto.
Mas, se Trump de alguma forma conseguir um avanço, não será a primeira vez que ele abre negociações fixando uma posição maximalista e ameaçando se retirar.
Como líder do Ocidente e amigo de Putin, o presidente dos EUA talvez seja o único capaz de alterar cálculos políticos.
Autoridades americanas parecem tentar replicar o modelo que levou ao cessar-fogo entre Israel e Hamas, que também começou com uma lista extensa de propostas depois refinadas.
Mas os cenários são bem diferentes: Trump pôde pressionar Israel a aceitar o plano, e países árabes fizeram o mesmo com o Hamas. Já com a Rússia, Trump parece carecer tanto de vontade quanto de alavancagem, apesar de novas sanções secundárias impostas pelos EUA ao petróleo russo, que financia o esforço de guerra.
Na Europa, nos Estados Unidos e até em Kiev, já se aceita amplamente que a Ucrânia não recuperará na mesa de negociações a maior parte do território perdido.
Mas as exigências russas por toda a região de Luhansk e Donetsk podem tornar o acordo impossível para Kiev, já que isso deixaria a Rússia em posição de lançar um novo ataque no futuro.
Propostas americanas vistas pela CNN sugerem transformar a área mais disputada dessas regiões em uma zona desmilitarizada, o que ainda assim enfraqueceria a defesa ucraniana no leste.
Mesmo diante de relatos de progresso na Europa, reina profundo ceticismo na Ucrânia após dias de novos ataques aéreos russos.
“Confie em mim, ninguém quer a paz mais do que nós”, disse a parlamentar ucraniana Inna Sovsun à CNN. Mas acrescentou: “Sinceramente, não há muita pressão sendo colocada sobre a Rússia. As únicas concessões discutidas são: ‘Que concessões a Ucrânia fará?’ Quais concessões a Rússia fará?”
Qualquer cessar-fogo que congele as linhas atuais do campo de batalha e inclua garantias de segurança, com uma força de estabilização europeia e apoio dos EUA, poderia ter chance. Mas a Rússia não deu sinal algum de abandonar sua oposição a tais termos.
Lacunas intransponíveis
Zelensky disse na terça-feira (25) que “os princípios” do documento americano podem ser desenvolvidos em acordos mais profundos.
Mas quanto mais a proposta é moldada para agradar a Ucrânia e a Europa, mais se distancia da posição maximalista russa.
O senador democrata Chris Van Hollen explicou a questão na CNN: “Era um plano inclinado a favor da Rússia. Então, claro, ucranianos e aliados europeus resistiram. Agora… depois dessas discussões em Genebra, aparentemente ucranianos e americanos estão alinhados. O plano foi de 28 para 19 pontos. Mas, se você é a Rússia, está dizendo: ‘Eu quero aquele plano original do Trump, certo?’”
Esse é o ponto crítico, e nada indica que tenha mudado.
A menos que Putin enfrente tensões internas não aparentes, a Rússia pode estar numa situação de “cara, eu ganho; coroa, você perde”.
Se conseguir puxar a diplomacia para seus objetivos, talvez com ajuda de Trump, poderá até considerar encerrar a guerra, por ora, em seus próprios termos.
Se sua intransigência quebrar a iniciativa atual, poderá continuar lutando, algo que talvez deseje de qualquer forma.
E qualquer atrito subsequente entre EUA e Europa ajudaria um de seus objetivos estratégicos: afastar Trump ainda mais da aliança ocidental.
Algo terá de quebrar esse ciclo vicioso.

