O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) optou por observar à distância os desdobramentos da crise do Banco Master, que pode ganhar ares de crise político-institucional de proporções ainda desconhecidas em um futuro próximo.
Com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o Banco Central expostos, não há no Palácio do Planalto e na Esplanada até o momento nenhum interlocutor escalado pelo presidente Lula para monitorar de perto o episódio e conversar diretamente com os diversos atores envolvidos no imbróglio em que se transformou a liquidação do banco dirigido até então por Daniel Vorcaro.
O entendimento nesse instante é o de que essa não é uma pauta para o governo, dada a autonomia conferida ao BC pela legislação, a contragosto do próprio presidente da República. E que quaisquer manifestações públicas ou um envolvimento direto de seus integrantes poderia importar de maneira desnecessária um desgaste para a gestão Lula, seja perante a opinião pública seja com a classe política – embora nos bastidores fontes com quem o JOTA conversou questionem o que classificam como “achaque” a atuação dos ministros Dias Toffoli, do STF, e Jhonatan de Jesus, da Controladoria-Geral da União (CGU).
Sem interlocutores
Até o momento, as declarações mais “enfáticas” sobre o tema foram dadas pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que colocou sua pasta à disposição do BC no dia em que foi anunciada a liquidação do Master, em 18 de novembro. Uma semana depois, disse que o BC cumpriu “sua obrigação legal”.
Porém, conforme o caso foi ganhando corpo, não houve nas últimas semanas outras manifestações nem de Haddad nem de possíveis interlocutores de Lula.
Além de ter a relação já desgastada com o presidente do BC e seu ex-secretário-executivo, Gabriel Galípolo, Haddad está de saída do governo, o que pode explicar seu silêncio, na opinião de colegas de governo. Ricardo Lewandowski, ex-ministro do Supremo e atual Ministro da Justiça, também tem silenciado. A exemplo de Haddad, ele também pode deixar a Esplanada em breve.
Outro possível ator seria o advogado-geral da União, Jorge Messias. Mas, em campanha para conseguir votos no Senado para ocupar a cadeira deixada por Luís Roberto Barroso no STF, ele está em posição delicadíssima para intervir em um escândalo que colocou em caldeirão fervente caciques do Centrão, governadores e ministros da Corte como Moraes e Toffoli.
Já a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, responsável pela articulação política, simplesmente não foi chamada por Lula a atuar.
Preocupação com ano eleitoral
O silêncio público dos auxiliares de Lula não significa, no entanto, que não haja preocupação no Palácio do Planalto com o potencial explosivo do escândalo no ano eleitoral.
A começar pela fragilização da imagem de Moraes. Fiador da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e, até por isso, recém-convertido em herói da esquerda, o ministro se tornou alvo de notícias que o colocam sob suspeita e editoriais críticos em diversos veículos de imprensa.
No Planalto e dentro do próprio Supremo, há quem acredite que o ministro ainda não explicou devidamente as denúncias contra sua suposta atuação para pressionar o BC contra a liquidação do Master. O contrato milionário de sua esposa, Viviane Barci, com a instituição só faz aumentar os questionamentos.
No BC, segundo relatos, o clima é de indignação com o que se vê como interferência de Toffoli e Jhonathan em um assunto visto como meramente técnico – esse último questionando a rapidez com que a liquidação foi feita e o outro, a lentidão. A histórica ligação do ministro do TCU com o Centrão também é colocada como um complicador, tanto no governo quanto entre integrantes do Supremo.
Essa visão de interferência indevida é compartilhada no Planalto, sempre nos bastidores. Mas não se ouviu nenhuma palavra pública de solidariedade ao BC até aqui. A estratégia, no momento, é jogar parado, enquanto Moraes e Galípolo se molham na chuva.

