A União Europeia formou maioria para aprovar o acordo com o Mercosul nesta sexta-feira, 9, que vem sendo negociado há 26 anos. Apesar disso, o bloco não comunicou a medida de forma oficial. Para se ter uma ideia, o chefe de assuntos estratégicos da ApexBrasil Europa, Aloysio Nunes, calcula, ao todo, em US$ 7 bilhões o aumento das exportações brasileiras para a União Europeia. Mas, afinal, o que vai mudar na indústria automotiva nacional após o acordo?
Vale ressaltar que o Mercosul conta com o Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai como associados, enquanto a União Europeia engloba outros 27 países, como Alemanha, França e Itália – justamente onde estão muitas das principais montadoras que operam por aqui.
O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, claro, vai redefinir estratégias de importação, exportação e quais modelos serão produzidos por aqui, assim como suas peças.
De acordo com os especialistas, a parceria tem como objetivo eliminar a maioria das tarifas entre as duas regiões. No entanto, os efeitos exatos não estão totalmente claros e os efeitos podem demorar anos.

Como poderá ficar o mercado após o acordo
Para Milad Kalume Neto, consultor e diretor-executivo da K.LUME Consultoria Automobilística, “a nossa tecnologia de veículos híbridos flex poderá ganhar escala, o que é benéfico para a nossa indústria e, por conseguinte, para o nosso país”.
“Entretanto não observo mais espaço para a produção de veículos de luxo por aqui. Com a proximidade dos preços entre os mercados, a lógica seria manter a produção na Europa, que tem maior escala e maior mercado para este tipo de produto; ficaríamos apenas com importações”, completa.

O consultor cita outros três pontos de atenção:
- As fabricantes do Mercosul enfrentariam dificuldades para competir com europeias em relação a maior capacidade tecnológica e economia de escala; este seria, de fato, um ponto de atenção.
- Outro ponto de atenção diz respeito a capacidade competitiva e de produção das autopeças que, com preços mais competitivos no exterior, poderiam abandonar a produção local. Nesse contexto ficaríamos mais dependentes de inovação externa, dificultando o desenvolvimento de soluções regionalizadas.
- Uma adequação ao que cada continente pode produzir de forma mais eficiente é esperado e seria adequado. Parte destes processos justifique os investimentos que as fabricantes chinesas estão realizando no Brasil pois desta forma teriam entrada facilitada no Velho Continente produzindo veículos por aqui.
Exportação
Na visão de Neto, o Brasil poderá exportar mais produtos para a Europa, principalmente no que sabe produzir muito bem: veículos pequenos como hatchs, sedãs, picapes e SUVs.
Outro ponto positivo do país será o etanol. “A Europa precisa de inovações tecnológicas de redução de carbono. Veículos elétricos puros se tornaram um estorvo e os híbridos se mostram como solução em diversos mercados. A opção pelo etanol seria parte deste processo de descarbonização europeia mas seriam necessários investimentos na geração ou importação deste combustível que não tem produção ou tem produção muito restrita naquele continente.”

Acordo
Na última proposta divulgada pelo governo brasileiro, em dezembro de 2024, os veículos com motores a combustão deixariam de pagar impostos de importação no prazo de 15 anos. O texto previa a isenção em 18 anos para veículos eletrificados, 25 anos para os movidos a hidrogênio e 30 anos para os que são produzidos “com novas tecnologias”, indisponíveis no mercado atualmente.
“O acordo prevê a redução gradual dos impostos de importação em um prazo de 15 anos. Isso não significa que o efeito seja imediato, pois a cadência de reduções ainda será confirmada”, afirma Cassio Pagliarini, diretor de marketing e sócio da Bright Consulting.
Proteção
Atualmente, o Brasil paga 35% de imposto de importação para veículos advindos do bloco europeu. Mesmo com a alíquota zero, estão previstas medidas de proteção ao nosso mercado, caso ocorra, por exemplo, uma “evasão” das montadoras por aqui.
O Brasil poderá ainda suspender por três anos o cronograma de alíquota zero para a indústria automotiva (ou mesmo retomar a alíquota de 35%) sem necessidade de oferecer qualquer compensação à União Europeia.
“Para isso, basta que sejam observados riscos à indústria local (e vice-versa) e esta suspensão poderá ser renovada pelas partes por dois anos sendo uma segurança para as operações industriais entre as partes”, diz Neto.
Associações não comentam
Consultadas na manhã desta sexta-feira por QUATRO RODAS, a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) e a Abeifa (Associação Brasileira das Empresas Importadoras e Fabricantes de Veículos Automotores) não quiseram se manifestar. Ambas vão comentar sobre o assunto durante suas coletivas de imprensa que ocorrerão nos próximos dias, 20 de janeiro e 15 de janeiro, respectivamente.
A Abipeças (Associação Brasileira da Indústria de Autopeças) também foi consultada, mas não respondeu sobre o assunto até a publicação deste conteúdo. O espaço segue aberto para esclarecimentos.

