Com o recuo do gelo, encostas inteiras estão deslizando para o mar, e cientistas alertam para o perigo crescente em fiordes visitados por cruzeiros Tecnologia, Aquecimento global, COP30, Meio ambiente, Mudanças climáticas CNN Brasil
Era uma manhã muito cedo de agosto quando todo um lado de montanha no fiorde Tracy Arm, no Alasca, se desprendeu e deslizou para dentro das águas profundas do oceano abaixo.
O deslizamento criou um respingo gigantesco – um tsunami massivo, porém localizado, que subiu a encosta da montanha oposta, nivelando tudo em seu caminho até a altura do Empire State Building. Arrancou pinheiros do solo, deixou uma ilha próxima reduzida à rocha nua e pulverizou o gelo glacial ao redor. Todo o episódio durou poucos minutos.
A cerca de 24 quilômetros de distância, um navio de cruzeiro da National Geographic, com cerca de 150 passageiros e tripulantes, começou a se mover para trás, puxado por correntes que mudaram de repente em meio a uma névoa fantasmagórica.
E a 32 quilômetros do outro lado do canal do fiorde, três caiaqueiros acampados em terreno alto acordaram com água do mar pingando dentro da barraca, seus equipamentos espalhados pela margem. Um dos caiaques foi perdido, rodopiando em um redemoinho no oceano.
Levaria dias para a dimensão da devastação em frações de segundo se tornar clara, mas especialistas dizem que foi um milagre ninguém ter se ferido ou morrido. O navio da National Geographic, em particular, foi salvo pelo fato de estar posicionado atrás de uma curva em “S” no fiorde, que amorteceu o impacto da parede de água que avançava pelo canal.
“Isso provavelmente salvou suas vidas”, afirma Jackie Caplan-Auerbach, sismóloga e professora da Western Washington University, que manteve contato com o capitão do navio e relatou o caso à CNN.
Mas os cientistas que estudam esse tipo de deslizamento estão preocupados que possa acontecer novamente. Tracy Arm é uma rota popular para navios de cruzeiro repletos de turistas em busca de gelo, ansiosos por ver geleiras árticas antes que desapareçam.
“Eu olhei os cronogramas dos cruzeiros”, diz Caplan-Auerbach. “Em qualquer dia, há geralmente dois navios de cruzeiro com, literalmente, milhares de pessoas a bordo.”
Bem acima das águas frias e cristalinas do Golfo do Alasca, as montanhas estão se movendo, deslizando lentamente em direção à linha d’água.
No total, os cientistas mapearam mais de mil ocorrências do que chamam de “deslizamentos de terra de movimento lento” no Alasca. Alguns avançam centímetros; outros, mais de três metros por ano.
Alguns desses trechos de montanha se soltaram profundamente no leito rochoso, fazendo com que a face inteira da montanha se desprendesse — algo que ocorreu pelo menos duas vezes nos últimos dois anos.
Se um volume tão grande de rocha, solo e detritos cai em um corpo de água profundo, seja um lago glacial ou o oceano, o resultado é um tsunami perigoso.
Muitos cientistas acreditam que esse fenômeno é impulsionado, em parte, pelo derretimento rápido das geleiras, que expõe as encostas das montanhas. Sem as espessas camadas de gelo para sustentá-las, as faces rochosas ficam instáveis. O Alasca aqueceu 2,5 °C desde 1950, segundo dados federais, sendo o estado que mais aquece nos Estados Unidos.
Mas essas geleiras em retração também atraem dezenas de milhares de turistas ao estado todos os anos. À medida que elas recuam, os navios avançam ainda mais pelos fiordes para chegar perto dos gigantes de gelo que derretem.
O maior especialista do Alasca nesses deslizamentos sabe por que ainda não houve uma tragédia com mortes causadas por um deslizamento seguido de tsunami: pura sorte.
“Não é porque isso não seja um perigo”, afirma o geólogo Bretwood Higman, da consultoria ambiental Nuka Research, no Alasca. “É porque simplesmente ainda não aconteceu acima da casa de alguém ou ao lado de um navio de cruzeiro.”
O governo federal e o estado do Alasca estão praticamente às cegas quando se trata de monitorar esses deslizamentos.
Apenas um — o Barry Arm, a 96 quilômetros a leste de Anchorage, na costa do Alasca — é monitorado continuamente pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Os outros são verificados periodicamente por satélites ou aeronaves. As demissões e cortes orçamentários durante o governo Trump reduziram as equipes de vigilância, especialmente nos parques nacionais mais visitados do Alasca. O Serviço de Parques e o USGS continuam na mira de novos cortes acentuados pelo Departamento do Interior, segundo documentos judiciais divulgados nesta semana.
O Serviço de Parques Nacionais não respondeu às perguntas da CNN sobre se informa navios de cruzeiro e visitantes sobre esses riscos.
O colapso da encosta em Tracy Arm foi épico, mas não surpreendeu os cientistas.
Um evento semelhante — embora menor — ocorreu no ano passado no Parque Nacional Kenai Fjords, quando um deslizamento produziu uma onda de tsunami de 17 metros. Em 2015, outro deslizamento próximo à geleira Tyndall gerou uma onda gigante perto do Parque e Reserva Nacional Wrangell–St. Elias.
Todos tinham algo em comum: o deslizamento e o tsunami aconteceram próximos à foz de uma geleira em retração. Alguns cientistas, incluindo Higman, acreditam que isso marca o início de uma tendência preocupante.
“Se você juntar tudo, parece claro que houve um aumento recente”, diz Higman. “Se voltarmos aos anos 1990, praticamente não havia casos. O aumento é tão acentuado que — apesar das limitações da minha análise — sinto-me à vontade para dizer que esses eventos estão se tornando mais frequentes.”
“Lançando pedras do tamanho de carros”
O mega-tsunami de 1958 na Baía de Lituya, no Alasca, gerou uma das ondas mais altas já registradas: 524 metros. Causado por um forte terremoto que despejou 40 milhões de toneladas de rocha na baía de uma só vez, o tsunami matou cinco pessoas e devastou mais de cinco quilômetros quadrados de floresta costeira.
Agora, os cientistas afirmam com confiança que o tsunami deste ano em Tracy Arm foi a segunda maior onda já registrada no Alasca, atrás apenas de Lituya Bay. A altura e a força foram “enormes”, afirma Patrick Lynett, professor e modelador de tsunamis da Universidade do Sul da Califórnia.
Os modelos de Lynett indicam que a onda tinha entre 90 e 150 metros de altura, enquanto a marca que deixou na montanha do outro lado do fiorde chegou a cerca de 460 metros — a altura do Empire State Building.
“O que essa onda parecia naquele momento é difícil de imaginar”, diz Lynett. “Pode ter parecido uma parede gigantesca de água branca; pode ter parecido um rio rugindo em sua direção. Pode ter sido uma onda de 120 metros quebrando, como as que surfistas enfrentam — nós realmente não sabemos.”
Mas o som, quando atingiu a terra, foi como o de um trem de carga.
“Literalmente, estava lançando pedras do tamanho de carros e ônibus pela frente, porque elas eram arrastadas pela água”, diz Lynett. “Arrancava centenas de metros de árvores das margens dos dois lados. Dá pra imaginar o som disso.”
Sasha Caldey, 25 anos, foi a primeira caiaqueira a acordar com o barulho da água lá fora — e a que perdeu o barco para o oceano furioso. “Nunca vi um redemoinho tão grande antes”, afirma.
Os caiaqueiros afirmam que não sabiam que grandes deslizamentos eram um risco naquela região.
“Ouvimos todo mundo dizer: não cheguem muito perto das geleiras, porque elas podem desabar, podem virar”, conta o caiaqueiro Nick Heilgeist à CNN. “Mas deslizamento de terra? Isso não estava nos planos.”
Como sobreviver a um tsunami causado por deslizamento
O deslizamento de 10 de agosto aconteceu em uma área popular entre navios de cruzeiro e barcos de turismo. Se o grupo de caiaqueiros não tivesse feito um pedido de socorro, demoraria mais para perceberem que o deslizamento em Tracy Arm havia ocorrido. Como a grande maioria das encostas em movimento do Alasca, ela não é monitorada continuamente.
A única que é — Barry Arm — é um monstro em movimento lento: um volume de quase 500 milhões de metros cúbicos, com 2,4 km de extensão e até 900 m de altura. Cientistas do USGS a descobriram em 2020 e agora usam diversos instrumentos — radar terrestre, sismômetros, câmeras e sensores infrassônicos — para medir o quanto ela se move.
Em 2022, Barry Arm deslizava a um ritmo relativamente rápido de 20 cm por dia. Em 2023, desacelerou e parou em 2024, segundo Dennis Staley, cientista do USGS e geomorfólogo especializado em deslizamentos no Observatório de Vulcões do Alasca.
“Estamos prestando a máxima atenção ao Barry Arm”, diz Staley.
Os cientistas estão tão focados em estudar Barry Arm e sua geleira em retração porque ela fica a apenas 48 km da pequena cidade de Whittier. Nesse crescente polo de turismo e cruzeiros, alguns capitães de barcos turísticos dizem que precisam que esses dados sejam transformados em alertas capazes de proteger embarcações e comunidades em caso de outro tsunami.
“Não tenho confiança de que, se algo acontecer às 1h02 da manhã, a informação chegará aos moradores de Whittier a tempo de agirmos e salvarmos pessoas”, afirma Mike Bender, capitão local e coproprietário da Lazy Otter Charters. “Sem falar nos navios que possam estar em trânsito. É um tempo muito curto.”
A CNN procurou diversas vezes a National Geographic sobre a experiência do navio em agosto, mas não obteve resposta.
O melhor cenário para um capitão durante um tsunami é estar em mar aberto, em águas profundas, e enfrentar a ondulação. Em Whittier, a empresa Phillips Cruises and Tours, que oferece passeios por 26 geleiras, tem tripulações acostumadas a lidar com ondas de até 4,5 m causadas por blocos de gelo que caem no oceano.
“Você deve reduzir a velocidade”, afirma o capitão Cody Hanna. “Não pode ir de frente em alta velocidade, nem ficar de lado para a onda. É preciso virar e apontar para ela.”
Mas o pior cenário seria estar em um fiorde estreito, sem espaço para manobrar, especialmente se uma onda muito maior estiver vindo.
“Vai ser uma péssima notícia”, diz Bender. “Não haverá para onde ir quando a onda subir, mesmo em águas profundas.”
“Tenho certeza de que seria uma viagem insana; todos nós já falamos sobre isso”, acrescenta.
Hanna defende um sistema de comunicação capaz de transmitir alertas de deslizamento de barco para barco, para que os capitães recebam avisos emergenciais mesmo fora da área de cobertura de celular.
“Operacionalmente, quero o máximo de informação no menor tempo possível”, diz. “Coletar os dados é uma coisa; distribuí-los rapidamente é outra.”
A porta-voz da Norwegian Cruise Line Holdings, Brenda Figueroa, enfatizou que a principal prioridade da empresa é a segurança.
“Trabalhamos em estreita colaboração com autoridades locais, estaduais e federais para garantir que nossas operações atendam a todos os padrões de segurança aplicáveis”, afirma Figueroa. O mesmo foi reforçado pela Cruise Lines International Association, entidade que representa a maioria das companhias de cruzeiro.
Os cientistas concordam que os alertas são cruciais, mas dizem que é necessário muito mais dados sobre as encostas antes que eles possam acontecer.
Quando o gelo desaparece
A descoberta do deslizamento de Barry Arm foi um momento decisivo. Quando Higman começou a observar outras partes do Alasca, viu deslizamentos de movimento lento por toda parte.
“Foi muito surpreendente perceber quanto está acontecendo”, afirma.
Muitos cientistas apontam as mudanças climáticas causadas pelo homem e o derretimento acelerado das geleiras como grandes responsáveis por essa instabilidade das montanhas.
“A forma mais intuitiva de explicar é que, por mil anos, o gelo sustentava a base dessas encostas”, diz Lynett, da USC. “Quando você remove esse gelo rapidamente, o que segurava a encosta desaparece.”
As mudanças climáticas também retêm mais umidade no ar, levando a chuvas mais intensas — outro fator que, segundo os cientistas, desestabiliza certas encostas.
Mais um fator em análise é a temperatura das próprias rochas. Elas se expandem e se contraem com o calor e o frio, explicou Noah Finnegan, geomorfólogo e professor da Universidade da Califórnia em Santa Cruz. Rochas cobertas por gelo por mil anos mantiveram temperatura constante; a variação súbita após o derretimento pode levar à “formação e expansão de redes de fraturas”, afirma Finnegan.
Mas por que alguns deslizamentos lentos colapsam e outros não? Caplan-Auerbach estuda tremores sísmicos quase imperceptíveis que precederam grandes deslizamentos, como o de agosto em Tracy Arm.
“Sou otimista de que, com mais instrumentos, poderíamos aprender muito sobre isso”, afirma — idealmente permitindo emitir alertas com horas de antecedência. “Um dia poderemos dizer: ‘esta é uma área de risco?’”
Finnegan estuda vários deslizamentos lentos que parecem ocorrer em conjunto com o recuo das geleiras e estão “fortemente ligados” à perda de gelo, mas “em muitos desses casos, o recuo não resulta em colapso catastrófico”.
O ponto central, dizem os cientistas, é que precisam de mais vigilância e instrumentos no terreno para alertar as pessoas sobre o próximo tsunami causado por deslizamento.
“Sabemos de alguns lugares onde devemos olhar, mas não sabíamos sobre (Tracy Arm)”, diz Caplan-Auerbach. “Então, o que mais estamos deixando passar?”
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