A indústria automotiva brasileira ingressou em 2024 em um cenário de recuperação gradual, resultante tanto da normalização das cadeias globais de suprimentos no pós-pandemia, como da recomposição da demanda interna. Esse movimento ocorreu em paralelo a um ambiente regulatório em transformação, marcado pela formulação de políticas públicas de descarbonização e modernização tecnológica.
Em janeiro daquele ano, as vendas de veículos cresceram 13,1% se comparado ao mesmo mês de 2023, atingindo 162 mil emplacamentos, e registrando uma média diária superior a 16,9% com relação ao período anterior. Embora a produção tenha se mantido estável – em torno de 152 mil unidades – tratava-se de um patamar que indicava a superação das rupturas logísticas e da crise global de fornecimento de semicondutores que marcaram o biênio pandêmico.
O ano de 2024 também foi marcado por uma guinada no padrão de consumo, com maior adesão aos híbridos e elétricos, que, só em janeiro, representaram 7,9% dos licenciamentos – à época, um recorde histórico, segundo a Fundep[1].
A trajetória do setor em 2025 foi marcada pelo melhor desempenho da indústria desde 2020, reflexo da combinação de demanda reprimida, normalização produtiva e a recuperação de mercados externos estratégicos. A média diária de vendas, em fevereiro deste ano, superou em 19% com relação a janeiro, e as vendas avançaram 39%[2].
Quando comparados ao mesmo período em 2024, os emplacamentos de janeiro e fevereiro cresceram para 171,2 mil[3] e 185 mil unidades, respectivamente. A produção acompanhou o ritmo, com 175,5 mil unidades em janeiro e 217,4 mil em fevereiro de 2025, sendo este último o maior resultado do mês de fevereiro desde 2019 e ainda o melhor bimestre produtivo desde 2021[4].
No mesmo período, a participação dos veículos importados atingiu 21% — a maior desde 2012 — movimento influenciado não apenas por condições de preço e disponibilidade, mas também pelo regime jurídico dos acordos automotivos bilaterais e pelas regras de origem aplicáveis ao comércio exterior de veículos
Talvez o dado mais eloquente do início de 2025 tenha sido o comportamento das exportações, que cresceram 55% no primeiro bimestre. A expressiva recuperação refletiu o desempenho excepcional de mercados sul-americanos, com altas de 172% para a Argentina, 52% para a Colômbia, 17% para o Uruguai e 12% para o Chile. Esse dinamismo externo forneceu o fôlego necessário para sustentar a expansão interna mesmo diante de um cenário de política monetária restritiva.
No fim do primeiro quadrimestre de 2025, o setor automotivo sul-americano começou a perder ritmo: as vendas de caminhões caíram 0,4% e a produção recuou 6%, enquanto as exportações seguiram fortes, com alta de 47,8%, impulsionadas pela Argentina. As vendas de importados também cresceram bem acima dos modelos nacionais[5].
A partir de outubro, as exportações sofreram um choque, com queda de 23%, após o término de vigência do acordo automotivo Brasil-Colômbia sem a renovação das condições preferenciais de comércio, o que elevou custos e reduziu a competitividade imediata dos veículos brasileiros.
Apesar do impacto externo, o mercado interno manteve algum dinamismo, ainda que com estoques elevados de importados e perda de competitividade dos veículos nacionais. No cenário internacional, a demanda por elétricos esfriou e as montadoras enfrentaram margens pressionadas e incertezas regulatórias, em meio à crescente concorrência chinesa[6].
Neste ambiente, o programa Mover[7], oficialmente regulamentado pelo governo federal em abril de 2025, assume especial relevância. O programa constitui um marco regulatório de política industrial para o setor automotivo, combinando incentivos fiscais e financeiros com metas normativas obrigatórias relacionadas à eficiência energética, descarbonização e conteúdo tecnológico.
A fruição dos benefícios está condicionada ao cumprimento de contrapartidas regulatórias, reforçando a necessidade de compliance tecnológico e ambiental. Para a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), o Mover representa o arcabouço regulatório mais robusto e previsível da última década.
No entanto, as expectativas para 2026 não são as mais favoráveis, segundo a Anfavea. O presidente da associação projeta que a redução de juros no início do próximo ano deve impactar o setor de forma relevante, em especial nos últimos trimestres de 2026.
Apesar de sinais de melhora, impulsionados pelas negociações entre os governos brasileiro e chinês para a retomada das exportações de chips, o mercado ainda não pode ser considerado plenamente normalizado. Soma-se a isso a preocupação com o encerramento do acordo automotivo entre Brasil e Colômbia, fator que tende a afetar diretamente o desempenho das exportações[8].
O ciclo 2024-2025 revela uma indústria capaz de reagir fortemente no pós-pandemia, mas ainda dependente de fatores estruturais: crédito caro, volatilidade externa, concorrência asiática e marcos regulatórios em evolução. O desempenho em 2026 dependerá, em grande medida, da estabilidade das políticas industriais, da continuidade de acordos comerciais estratégicos e da previsibilidade jurídica necessária para sustentar investimentos de longo prazo no setor automotivo.
[1] FUNDEP. Setor automotivo brasileiro celebra expansão e anuncia ciclo recorde de investimentos. Belo Horizonte, 2024. Disponível em: https://mover.fundep.ufmg.br
[2] ANFAVEA. Carta da ANFAVEA: Resultados de janeiro de 2025. Ed. 465. Documento apresentado na Coletiva de Imprensa da ANFAVEA de fevereiro de 2025. São Paulo: ANFAVEA, fev. 2025. Disponível em: https://anfavea.com.br/cartas/carta465.pdf. Acesso em: 8 dez. 2025.
[3] TERRA. Venda de veículos chega a 171,2 mil em janeiro e atinge os níveis pré-pandemia. Acesso em: 28/11/2025. Disponível em: https://www.terra.com.br/economia/venda-de-veiculos-chega-a-1712-mil-em-janeiro-e-atinge-os-niveis-pre-pandemia,74141a3eea5f22cd5e30b47407626822g80f0if0.html
[4] ANFAVEA. Carta da ANFAVEA: Resultados de dezembro e janeiro a dezembro de 2024. Ed. 464. Documento apresentado na Coletiva de Imprensa da ANFAVEA de janeiro de 2025. São Paulo: ANFAVEA, jan. 2025. Disponível em: https://www.anfavea.com.br/cartas/carta464.pdf. Acesso em: 8 dez. 2025.
[5] ANFAVEA. Carta da ANFAVEA: Resultados de abril e janeiro a abril de 2025. Ed. 468. Documento apresentado na Coletiva de Imprensa da ANFAVEA de maio de 2025. São Paulo: ANFAVEA, maio 2025. Disponível em: https://www.anfavea.com.br/cartas/carta468.pdf. Acesso em: 8 dez
[6] ANFAVEA. Carta da ANFAVEA: Resultados de outubro e janeiro a outubro de 2025. Ed. 474. Documento apresentado na Coletiva de Imprensa da ANFAVEA de novembro de 2025. São Paulo: ANFAVEA, nov. 2025. Disponível em: https://www.anfavea.com.br/cartas/carta474.pdf. Acesso em: 8 dez. 2025.
[7] BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Decreto do Programa MOVER. Brasília, 2025. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/decreto/D12435.htm
[8] QUATRO RODAS. Anfavea prevê que 2026 não será um ano fácil e ainda teme falta de chips. São Paulo: Editora Abril, 13 nov. 2025. Disponível em: https://quatrorodas.abril.com.br/noticias/anfavea-preve-que-2026-nao-sera-um-ano-facil-e-ainda-teme-falta-de-chips/. Acesso em: 1 dez. 2025.

