Embora a margem de vitória tenha sido muito menor do que há quatro anos, partido pró-europeu obteve mais de 50% dos votos Internacional, Eleições, Europa, Moldávia, Moldova, Rússia CNN Brasil
A vitória de um partido pró-europeu nas eleições parlamentares da Moldova foi um teste de fogo para a interferência russa que tentou impedir o país de se juntar à corrente dominante europeia.
O PAS (Partido da Ação e Solidariedade) derrotou facilmente o Bloco Patriótico pró-Rússia. Embora a margem de vitória tenha sido muito menor do que há quatro anos, o PAS obteve pouco mais de 50% dos votos, deixando a Moldova, o país mais pobre da Europa, um passo mais perto de ingressar na União Europeia.
Dois anos atrás, uma vitória do PAS parecia muito menos provável em meio a protestos generalizados contra o aumento dos preços da energia e outras questões básicas, mas seu triunfo trouxe algumas lições para toda a Europa.
Tensão durante escolha de líderes
Os riscos eram altos. Pouco antes da eleição, o Conselho Europeu de Relações Exteriores classificou a votação como um teste de estresse para a resiliência europeia.
“Partidos ou blocos fortalecidos ligados ao Kremlin criariam um risco direto à segurança na fronteira sudoeste da Ucrânia e forneceriam uma base central a partir da qual a Rússia poderia operar contra os países da UE”, afirmou.
Polônia, Alemanha e França afirmaram em um comunicado conjunto na segunda-feira (29) que houve “interferência sem precedentes da Rússia, incluindo esquemas de compra de votos e desinformação”.
Dirigindo-se ao povo moldavo e a presidente Maia Sandu, o primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, disse no X: “Vocês também impediram a tentativa da Rússia de assumir o controle de toda a região. Uma boa lição para todos nós.”
Nos últimos anos, a Europa e os Estados Unidos forneceram financiamento ao governo da Moldova enquanto este enfrentava protestos contra tarifas de energia, inflação e uma crise econômica.
Em 2023, a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) anunciou US$ 300 milhões em ajuda para melhorar a segurança energética da Moldova, diante do que a Embaixada dos EUA chamou de “tentativas de longa data do Kremlin de usar a energia como arma para minar a independência da Moldova”.
No entanto, os cortes no financiamento da USAID pelo governo Trump praticamente congelaram quase US$ 500 milhões em ajuda, deixando a Europa arcar com esse compromisso.
Independência energética da Rússia
A Moldova receberá mais de US$ 2 bilhões em ajuda da UE entre 2025 e 2027, uma injeção crucial de fundos destinada, em parte, a “fortalecer sua independência energética da Rússia”, segundo Bruxelas.
O momento também foi crucial, já que o governo pró-europeu estava perdendo terreno nas pesquisas em meio ao aumento dos níveis de pobreza e ao forte declínio do PIB da Moldova.
Além disso, com o apoio europeu, as autoridades moldavas realizaram uma vigorosa campanha contra a influência russa.
Este ano, a UE mobilizou o que chamou de Equipe Híbrida de Resposta Rápida para apoiar a Moldova contra interferências estrangeiras, e concedeu-lhe acesso à Reserva de Cibersegurança da UE.
Também criou um centro regional do EDMO (Observatório Europeu de Mídia Digital) para se concentrar na desinformação russa na Moldova e em outros lugares.
Em junho, a UE reuniu representantes do Google, Meta e TikTok com autoridades moldavas e grupos da sociedade civil para identificar campanhas de desinformação.
O serviço de segurança moldavo posteriormente identificou perfis falsos gerados por inteligência artificial que disseminava propaganda coordenada no Facebook, Telegram e TikTok.
O fundador do Telegram, Pavel Durov, afirmou no fim de semana que, no ano passado, “os serviços de inteligência franceses me contataram por meio de um intermediário, pedindo-me que ajudasse o governo moldavo a censurar certos canais do Telegram antes das eleições presidenciais na Moldova”.
Ele alegou que, em troca, lhe disseram que “os serviços de inteligência franceses ‘diriam coisas boas’ sobre mim ao juiz que ordenou minha prisão”.
Influência russa deve persistir
O governo moldavo reprimiu grupos pró-Rússia. Há dois anos, um partido pró-Moscou liderado por Ilan Shor, ex-integrante do parlamento da Moldova, foi proibido.
Shor é um empresário com ligações com a Rússia, acusado de roubar bilhões de dólares de bancos moldavos em 2014. Ele foi condenado por fraude, mas negou qualquer irregularidade.
Na semana passada, as autoridades prenderam mais de 70 pessoas e apreenderam passaportes, dinheiro e armas em conexão com um suposto plano para provocar distúrbios. A investigação, que incluiu cerca de 250 buscas em todo o país, foi liderada por uma promotoria especial com laços estreitos com agências europeias.
A comissária para a ampliação da UE, Marta Kos, afirmou que o governo moldavo “demonstrou ser resiliente e capaz de combater as forças que querem afastar este país do caminho europeu”.
Por sua vez, o Kremlin acusou na segunda-feira (29) as autoridades moldavas de sufocarem o apoio à oposição, alegando que havia poucas seções eleitorais para os moldavos que vivem na Rússia.
“Não se trata de uma tentativa da Rússia de influenciar ninguém. Trata-se do descontentamento de grande parte da população moldava por não ter o direito de votar nas eleições”, disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, na semana passada.
E a votação na região separatista moldava da Transnístria, onde mais de 1.000 soldados russos estão estacionados, foi prejudicada. Isso aconteceu quando a comissão eleitoral fechou quatro seções devido a “possível desestabilização” e ameaças.
A oposição alegou na segunda-feira (29) que pelo menos 200.000 pessoas foram impedidas de votar.
É improvável que a vitória do PAS ponha fim às operações de influência russas.
Plano secreto pró-Rússia
Há dois anos, a CNN noticiou um plano secreto elaborado pelo Serviço de Segurança russo, o FSB, que delineava opções detalhadas para desestabilizar a Moldova, incluindo apoio a grupos pró-Rússia, exploração da Igreja Ortodoxa e ameaças de corte de fornecimento de gás natural.
O documento apresenta uma estratégia de 10 anos para trazer a Moldova para a esfera de influência da Rússia e parece ter sido escrito em 2021 pela Diretoria de Cooperação Transfronteiriça do FSB.
O plano estabelecia objetivos que incluíam “opor-se à política expansionista da Romênia, vizinha da Moldova, e rejeitar a cooperação da Moldova com a Otan”, bem como “criar grupos de influência pró-Rússia estáveis” na Moldova.
Mas estas eleições demonstraram que existem fortes correntes na Moldova que se opõem a uma retirada para a órbita russa.
Houve uma elevada participação da diáspora moldava — cerca de um terço do eleitorado —, que é provavelmente mais pró-europeia do que as camadas mais velhas e pobres da população do país.
Os moldavos mais jovens também são mais pró-europeus, como evidenciado pela sua participação no referendo do ano passado sobre se a Moldova deveria procurar a adesão ou a adesão à UE.

