Segundo fontes ouvidas pela CNN, possibilidades são mantidas em sigilo na Casa Branca e redigidas discretamente Internacional, Donald Trump, Estados Unidos, Nicolás Maduro, Venezuela CNN Brasil
O governo de Donald Trump está elaborando planos para o caso de Nicolás Maduro, ditador da Venezuela, ser deposto, segundo dois altos funcionários da administração federal dos Estados Unidos e outra fonte familiarizada com as discussões.
Os planos estão sendo redigidos discretamente e mantidos em sigilo na Casa Branca, disseram as fontes ouvidas pela CNN.
Isso inclui múltiplas opções de como os EUA poderiam agir para preencher o vácuo de poder e estabilizar o país caso Maduro deixe o poder voluntariamente, como parte de uma saída negociada, ou se for forçado a sair após ataques americanos a alvos dentro da Venezuela ou outras ações diretas.
Publicamente, as autoridades americanas afirmaram que o objetivo do reforço militar no Caribe e dos ataques a barcos é reduzir o fluxo de drogas em direção aos EUA.
Porém, o planejamento interno é um sinal claro da consideração de Trump em forçar a saída de Maduro, algo que funcionários do governo já reconheceram sob anonimato.
A CNN noticiou que Trump ainda não decidiu como resolverá o impasse com a Venezuela e que existem vários grupos dentro do governo com visões bastante divergentes sobre uma possível ação militar ou secreta para depor Maduro.
Embora o presidente tenha ameaçado diversas vezes uma escalada na situação, incluindo ataques terrestres, dois altos funcionários do governo americano afirmaram que não há interesse em um maior envolvimento dos EUA no país.
Trump conversou por telefone com Maduro no final do mês passado, poucos dias antes do ditador e seus aliados no regime serem oficialmente classificados pela Casa Branca como integrantes de uma organização terrorista estrangeira.
Um alto funcionário da Casa Branca disse que, embora a ligação não tenha sido necessariamente conflituosa, Trump deu uma espécie de ultimato ao ditador, dizendo que era do interesse do próprio Maduro deixar o país e que o governo americano pretendia continuar “explodindo” barcos.
Em uma entrevista ao jornal Politico publicada nesta terça-feira (9), Trump se recusou a dizer até onde iria para depor Maduro, mas acrescentou que “seus dias estão contados”.
Trump não descartou a participação direta em uma mudança de regime, e o planejamento feito por pessoas na Casa Branca mantém suas opções.
“É dever do governo federal sempre se preparar para os planos A, B e C”, ponderou uma autoridade do governo dos EUA, observando que o presidente não estaria fazendo as ameaças que está fazendo se não tivesse uma equipe pronta com uma série de opções para qualquer possível resultado.
Outra fonte familiarizada com o planejamento afirmou que é “responsabilidade do governo dos EUA se preparar para todos os cenários ao redor do mundo que podem ou não se concretizar”.
Os planos estão sendo mantidos em sigilo no Conselho de Segurança Interna da Casa Branca, acrescentou a fonte.
Esse conselho é liderado por Stephen Miller, que tem trabalhado em estreita colaboração com o secretário de Estado e conselheiro interino de segurança nacional dos EUA, Marco Rubio, nos esforços relacionados à Venezuela nos últimos meses.
Oposição da Venezuela também monta planos
A oposição venezuelana, liderada por María Corina Machado e Edmundo González, vem trabalhando em planos para o período pós-eleitoral há anos e já compartilhou publicamente alguns elementos dessas ideias.
Seus esforços abordariam segurança, economia, energia, infraestrutura e educação, entre outros focos, pontuou David Smolansky, um líder da oposição, à CNN.
A oposição vem formulando planos de “100 horas” e “100 dias” após a deposição de Maduro, e esses planos foram compartilhados com diferentes setores do governo Trump, segundo uma fonte.
Não está claro o quanto o governo americano incorporou parte dessas ideias em seu planejamento, ainda segundo a fonte.

O governo de Joe Biden declarou González o “presidente legítimo” da Venezuela depois que os EUA alegaram que ele obteve a maioria dos votos nas eleições do país no ano passado.
Houve conversas informais dentro do governo sobre a possibilidade de Machado e González liderarem o país caso Maduro fosse deposto, destacaram autoridades. Machado elogiou publicamente Trump e afirmou que a Venezuela trabalharia em estreita colaboração com os EUA.
Mas agora o planejamento para o “dia seguinte” é mais intenso, tendo que levar em conta uma série de cenários diferentes em que Maduro poderia deixar a liderança.
Como os EUA podem proceder caso Maduro deixe o poder?
Não está claro se o governo dos Estados Unidos decidiu como procederia para destituir Maduro, o que complica ainda mais a já árdua tarefa de desenvolver planos detalhados para o dia seguinte.
Os EUA teriam que determinar quanto e que tipo de apoio dariam à Venezuela para evitar que o país mergulhasse em conflito e caos, e como pressionariam para influenciar a governança caso Maduro deixasse o poder após mais de uma década à frente da nação.
Embora o envio de tropas americanas para dentro da Venezuela seja improvável, mesmo que Trump não tenha descartado essa possibilidade, seriam necessários planos de apoio econômico, de segurança e de inteligência, avaliaram especialistas.
Diversos funcionários do governo americano afirmaram que Trump não está interessado em uma negociação longa e arrastada com Maduro.
O ditador terá menos liberdade para negociar do que Trump concedeu a outros líderes mundiais, disse um dos funcionários. As fontes também não consideram provável uma saída negociada de Maduro, dados os fracassos anteriores.
“O problema é que Maduro fez cinco acordos com diferentes partidos nos últimos 10 anos e quebrou todos eles”, disse Rubio à Fox na semana passada, acrescentando que o histórico de Maduro não significa que Trump não deva tentar chegar a um acordo.
Em outubro, Trump afirmou ter autorizado a CIA, a agência de inteligência dos EUA, a operar dentro da Venezuela para reprimir o fluxo ilegal de imigrantes e drogas provenientes do país sul-americano, mas não chegou a dizer que ela teria autoridade para depor Maduro.
De toda forma, especialistas saudaram os planos de preparação dentro dos EUA para considerar o que aconteceria após uma possível queda de Maduro, dada a complexidade e o perigo que a situação poderia atingir.
“É um bom sinal. Se eles pretendem mudar o regime, o que parece ser a intenção, precisam ter uma alternativa pronta para ser implementada desde o primeiro dia”, ponderou Mark Cancian, consultor sênior do departamento de defesa e segurança do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.
“Em 2003, no Iraque, os EUA não tinham um plano claro para o dia seguinte, e o governo Trump não quer repetir essa situação”, adicionou.
Ainda assim, Cancian também destacou que ter esses planos poderia dificultar que Trump recuasse em qualquer tentativa de mudança de regime.
Qualquer tentativa de construir uma nova estrutura de liderança colocaria os EUA na posição de ter que garantir a legitimidade de um novo governo perante o público internacional e doméstico.
“Quando e como restaurar o reconhecimento do governo venezuelano? Se María Corina Machado e Edmundo González assumirem imediatamente, é muito claro que seriam considerados presidentes legitimamente eleitos, então os EUA restaurariam o reconhecimento desde o primeiro dia”, avaliou Francisco Rodríguez, economista que estudou a Venezuela.
“Mas se for um governo de transição que inclua pessoas do chavismo, como e quando reconhecer o governo? O reconhecimento determinará o levantamento das sanções e o acesso ao apoio econômico, que será crucial para estabilizar o país”, disse ele, referindo-se ao movimento político do ex-líder venezuelano Hugo Chávez.
Embora o governo dos EUA mantenha contato com a oposição venezuelana, não há reuniões regulares de alto nível com autoridades como Rubio, disseram diversas fontes.
O próprio plano da oposição para governar o país após a saída de Maduro não é uma iniciativa sancionada pelo governo, acrescentaram.
David Smolansky, um líder da oposição venezuelana, elogiou os esforços contínuos do governo Trump em relação à Venezuela, mas não pôde comentar sobre o planejamento pós-guerra que o governo está realizando atualmente.
“Estamos alinhados com os EUA em relação a um hemisfério mais livre e seguro, reduzindo a influência de Cuba, Irã, Rússia e China no hemisfério, onde a Venezuela é o centro dessas forças externas”, ressaltou Smolansky, assessor sênior de segurança e relações exteriores de González e Machado.

