Na virada de um ano que se inicia, é comum que as pessoas façam balanços sobre o que houve de negativo e positivo no período que se encerra. Em termos coletivos, podemos nos perguntar como foi o ano de 2025 para as mulheres de nossa sociedade.
Definitivamente, não foi um ano bom. Assistimos, estarrecidas, a episódios recorrentes de violência e morte que nos lembram o quanto ainda precisamos avançar para assegurar às mulheres direitos básicos, sendo o primeiro e mais fundamental deles o direito à própria vida.
O feminismo, enquanto movimento plural e historicamente situado, constrói-se continuamente a partir da identificação de prioridades específicas em diferentes contextos históricos, respondendo às demandas de cada época. Por essa razão, uma pergunta que deve ser constantemente renovada é: quais são os “fantasmas” que nos assombram hoje? Ou, em outros termos, quais são os obstáculos que ainda se interpõem à concretização, ou ao menos ao avanço, de uma verdadeira justiça de gênero?
Responder a essa pergunta é reconhecer que vivemos em um tempo marcado pela coexistência de múltiplas pautas e demandas, que reclamam formas diversas de atuação. Os alarmantes índices de feminicídio, a persistência da violência doméstica em suas variadas manifestações e a baixa representatividade feminina nos espaços de poder político são alguns exemplos dos fatores que contribuem para a opressão e subalternização das mulheres. A esses se soma a fragilidade das políticas públicas voltadas ao fortalecimento das redes de cuidado, sem esgotar o amplo conjunto de questões envolvidas.
Para além desses desafios amplamente reconhecidos, é possível identificar a existência de uma outra “assombração”, mais sutil, porém não menos perversa, que atravessa nosso tempo: a transformação do feminismo em discurso simbólico. Esse processo pode ser descrito como sua estetização, domesticação ou esvaziamento crítico, no qual o feminismo deixa de operar como uma lente disruptiva de interpretação da realidade social.
O chamado “feminismo simbólico” ou “feminismo de fachada” manifesta-se como um sintoma característico das sociedades orientadas pela lógica do consumo de massa, da financeirização e do marketing. Nesse contexto, o feminismo passa a ser reproduzido sob a forma de espetáculo: suas pautas e reivindicações são cooptadas e convertidas em instrumentos de legitimação simbólica que pouco ou nada alteram a experiência concreta das mulheres, preservando, por consequência, o status quo da desigualdade de gênero.
Alguns estudos utilizam o termo genderwashing para descrever esse fenômeno no ambiente corporativo, em analogia ao conhecido greenwashing. Assim como empresas simulam compromisso ambiental sem promover mudanças efetivas, instituições públicas e empresas privadas passam a adotar discursos e gestos simbólicos de adesão à justiça de gênero, enquanto mantêm práticas que reproduzem desigualdades estruturais.
O uso simbólico do feminismo não se restringe a manifestações mais visíveis e caricatas, como celebrações estereotipadas do Dia Internacional das Mulheres ou campanhas institucionais que reforçam papéis de gênero rígidos. Ele também se expressa de formas mais sofisticadas e insidiosas: na elaboração de leis repletas de retórica progressista, mas desprovidas de mecanismos eficazes de implementação; na criação de estruturas institucionais que existem apenas formalmente; ou ainda na nomeação de mulheres para cargos de destaque em organizações que permanecem alicerçadas em hierarquias profundamente masculinizadas.
Essa lógica torna-se particularmente evidente no campo das políticas de prevenção e combate à violência de gênero, especialmente no que se refere ao assédio moral e sexual nos ambientes de trabalho, tanto em instituições públicas quanto em empresas privadas. Embora a criação de comissões, códigos de conduta e canais formais de denúncia represente uma conquista histórica do movimento feminista, observa-se com frequência um descompasso significativo entre o discurso institucional e a prática concreta.
Políticas mal desenhadas, processos ineficazes de apuração e a ausência de responsabilização efetiva acabam produzindo cenários de revitimização das mulheres e de proteção aos agressores.
O assédio sexual e o assédio moral compartilham uma raiz comum: a violação da dignidade da mulher e sua redução à condição de objeto, seja para exploração, seja para humilhação. Suas consequências extrapolam o dano individual, comprometendo a própria possibilidade de participação plena das mulheres nos espaços institucionais e profissionais.
Nesse contexto, políticas e instrumentos de combate ao assédio – conquistas resultantes de décadas de luta feminista – podem ser capturados pela lógica da simbologia performática. Isso ocorre quando instituições passam a utilizar a retórica da igualdade de gênero como instrumento de autopromoção e blindagem reputacional, convertendo o compromisso com a justiça de gênero em um ativo simbólico. Selos, certificações e discursos oficiais passam a operar como escudos retóricos que inibem o escrutínio público e deslegitimam denúncias internas, fazendo com que a aparência de engajamento substitua a transformação real.
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Diante desse cenário, uma das grandes “assombrações” do nosso tempo reside justamente no sequestro de pautas feministas estruturais por encenações simbólicas que produzem a ilusão de avanço, quando, na realidade, operam como formas sofisticadas de retrocesso.
O desafio que se impõe para o ano que se inicia, e certamente para os próximos, não está apenas em ampliar direitos, mas em impedir que direitos conquistados sejam esvaziados por políticas de fachada, por mais bem produzidas que sejam. É no intervalo entre o que se proclama e o que efetivamente se transforma que se mede a autenticidade do compromisso com a justiça de gênero.

