Lula e Haddad endurecem discurso político, enquanto buscam saídas para reverter parte dos R$ 17 bilhões de arrecadação perdida com a medida provisória que caiu sem nem ter o mérito votado Política, -agencia-cnn-, Congresso, Medida Provisória, William Waack CNN Brasil
Após a queda da MP (medida provisória) que previa a taxação de uma série de transações financeiras, o governo federal endureceu o discurso político e testa o poder de fogo do Congresso Nacional.
O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e aliados entraram numa guerra direta de narrativas com o Centrão e a oposição. Lula voltou a investir no embate de “ricos contra pobres” e criticou diretamente os parlamentares, além da parcela mais rica da população.
“Eles [os mais ricos] podem saber que é uma questão de dias, eles vão pagar o imposto que merecem aqui no Brasil, porque o povo trabalhador não vai deixar isso barato”, declarou nesta quinta (9).
A crítica foi reforçada pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que, em rara manifestação direta nas redes sociais, acusou parte do Congresso de ceder ao “lobby dos privilegiados”.
No vídeo, Haddad afirmou que “a MP dos bilionários, bancos e bets pode ter caído, mas nós seguiremos de pé, ao lado do povo brasileiro, defendendo seus direitos e enfrentando todo e qualquer privilégio que os ameacem”.
A oposição, por sua vez, afirma que a medida prejudicava a população ao aumentar a taxação em cima de investimentos e outras transações. O grupo chegou a apelidar a MP de “taxa-tudo”.
Também alega que o governo conseguiu manter parte da alta do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) no Supremo, então não haveria motivos para o governo insistir no aumento de tributos por meio da MP.
Para aliados de Lula, a derrota teve mais motivos políticos do que técnicos. Ainda assim, avaliam que a oposição deu ao governo um discurso a ser explorado rumo às eleições de 2026.
De todo modo, com a arrecadação comprometida e a necessidade de manter o equilíbrio fiscal, o governo e a base estudam saídas que recuperem ao menos parte dos R$ 17 bilhões que deixam de entrar nos cofres públicos no ano que vem — a MP foi enterrada antes de sequer ter o mérito votado no plenário da Câmara dos Deputados nesta semana.
Alternativas
Neste novo capítulo de Executivo versus Legislativo, Haddad ameaçou cortar emendas parlamentares para ajudar a fechar as contas. O valor pode atingir até R$ 10 bilhões, segundo o líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP). Um eventual corte é sempre um ponto sensível aos deputados e senadores, especialmente às vésperas das eleições.
Mais alternativas sobre a mesa são pegar temas de maior consenso e incluí-los em projetos já em tramitação, apresentar novos projetos de lei e lançar mão de decretos com aumentos do IOF e IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), por exemplo. Ainda, o uso de normas infralegais para evitar a necessidade de tramitação no Congresso.
A edição neste ano de uma nova medida provisória, ainda que mais enxuta e com pontos consensuais, é considerada improvável, devido às limitações legais e ao calendário legislativo apertado.
Enquanto isso, o governo pretende conversar com o relator do Orçamento de 2026, deputado Isnaldo Bulhões (MDB-AL), para discutir os impactos da queda da MP nas contas públicas. O líder do MDB na Câmara foi um aliado do governo ao longo da tramitação da MP.
À CNN, Bulhões afirmou que discutirá possibilidades de receita, mas deixou claro que a “Lei Orçamentária Anual não será alterada às pressas” e que o texto precisa ser aprovado apenas até dezembro.
PT tenta recuperar terreno
O líder do PT na Câmara, deputado Lindbergh Farias (RJ), apresentou nesta quinta um projeto que eleva a taxação sobre casas de apostas online, as chamadas bets, dos atuais 12% para 24% – seis pontos percentuais a mais do que o próprio governo previa inicialmente.
A taxação de receitas em cima de ganhos de casas de apostas era um dos pilares da MP vencida e agora o PT busca voltar com a pauta em uma alíquota ainda maior.
Aliados do presidente da República também pretendem tocar um projeto de corte de benefícios fiscais que já está em tramitação na Câmara.
O tema tem o apreço do presidente da Casa, afirmam interlocutores próximos a Hugo Motta (Republicanos-PB). Governistas, porém, vão mais longe: dizem haver um acordo para que o assunto entre em pauta.

