Após um 2025 de altos e baixos, de tapas e beijos, no morde-assopra da relação com a cúpula do Congresso, o presidente Lula (PT) decidiu recorrer a uma paixão nacional para começar o ano em paz com Davi Alcolumbre (União-AP) e Hugo Motta (Republicanos-PB). O petista planeja chamar os chefes do Senado e da Câmara para um churrasquinho no Alvorada no fim da semana que vem.
Os líderes de sua frágil base parlamentar, além de ministros e alguns secretários mais próximos, também serão convidados para o evento, com o objetivo de distensionar o clima em um ano que já começa nervoso, marcado pelo noticiário em torno do Banco Master, pelo bloqueio de R$ 11 bilhões em emendas parlamentares e pelas arestas ainda por aparar de olho nas eleições gerais de outubro.
Faltou churrasco no Lula 3
A tática é antiga e remonta aos dois primeiros mandatos do petista, entre 2003 e 2010. Naquela época, com o país menos polarizado e uma popularidade bem mais alta do que a atual, os churrascos, almoços e confraternizações regados a uísque e cachaça no Alvorada eram um dos instrumentos preferidos de Lula para azeitar a relação e fazer articulação política informal com os parlamentares.
A ausência desse tipo de evento no Lula 3, aliás, é vista como um dos fatores da relação bipolar que o Congresso tem mantido com o presidente — além, é claro, da relativa perda de poder do Executivo em razão da impositividade das emendas. Agora, com a eleição dobrando a esquina e muito palanque mal resolvido, Lula decidiu recorrer novamente à velha tática.
O regabofe não tem uma pauta definida. O Planalto considera ter deixado 2025 com a “casa arrumada” na economia, após conseguir aprovar no Congresso praticamente toda a sua agenda econômica para este mandato. Ainda assim, há assuntos pendentes. A MP do Gás para Todos, uma nova regulamentação para os trabalhadores de aplicativos, o fim da jornada 6×1, a PEC da Segurança Pública, o PL Antifacção, a MP do Redata e o PL da Inteligência Artificial seguem na fila de votações.
CPMI do Master não interessa a ninguém
O escândalo do Banco Master certamente será comentado nas rodinhas de conversa, ainda que aos cochichos e de forma mais reservada. Lula ainda acredita que a crise não atinge o coração de seu governo, apesar do noticiário recente envolvendo a ligação do ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski com o banco e da reunião privada, fora da agenda, do presidente com Daniel Vorcaro no Palácio do Planalto, em 2024. A avaliação do petista é que a oposição está, neste momento, mais enrolada.
Mesmo assim, não interessa nem um pouco ao Planalto a instalação de uma CPMI para apurar um caso desse porte em pleno ano eleitoral. A Motta e seus padrinhos do centrão, muito menos. A aposta é que Alcolumbre tampouco tenha apetite para viabilizar esse tipo de colegiado, diante dos investimentos de R$ 400 milhões da Amapá Previdência em letras financeiras do Master.
Com isso, uma sessão do Congresso para analisar vetos presidenciais — que o obrigaria a fazer a leitura do requerimento da CPMI — tende a ser postergada pelo presidente do Senado o quanto for possível.
Messias no STF, Pacheco em MG
O churrasco também servirá para começar a desfazer o mal-estar entre Lula e Alcolumbre em torno da indicação de Jorge Messias para a vaga deixada por Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal (STF).
Interlocutores no Planalto afirmam que o presidente do Senado já não está tão furioso quanto no fim do ano passado com o fato de seu aliado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), ter sido preterido. Nesta quarta-feira (28/1), a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, afirmou que a mensagem com a indicação de Messias será encaminhada ao Congresso até o fim de fevereiro.
Alcolumbre, além disso, é peça-chave nas articulações de Lula para tentar convencer Pacheco a disputar o Governo de Minas Gerais e, assim, garantir ao presidente um palanque robusto no segundo maior colégio eleitoral do país. Nada melhor, portanto, do que uma boa fraldinha para amaciar o coração do senador — que, por sua vez, conta com o apoio de Lula para viabilizar a permanência de seu grupo político no poder no Amapá.
A grelha do Alvorada
A aposta de Lula na “diplomacia do churrasco” sinaliza mais do que um gesto de reaproximação com a cúpula do Congresso. É também o reconhecimento de que, em um ambiente de poder mais fragmentado e com um Legislativo fortalecido, o presidente precisa voltar a ocupar o espaço da política miúda, do contato direto e da negociação fora dos holofotes.
O problema é que, diferentemente do que ocorria nos seus dois primeiros mandatos, a grelha do Alvorada hoje já não resolve sozinha impasses estruturais nem garante lealdade duradoura. Pode aliviar tensões, mas não substitui uma base sólida nem elimina o custo político de um ano eleitoral que promete ser especialmente áspero.

