Horas após o ataque americano à Venezuela e captura do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama, Cilia Flores, o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a ação dos EUA é “inaceitável”. A condenação já era esperada, mas está claro na mensagem que o Brasil não quer perder a possibilidade de mediar o diálogo. E Lula, que não menciona até aqui o nome de Maduro no texto, deixa isso claro.
Trata-se de uma faca no pescoço em ano eleitoral. O governo está tendo o cuidado ao posicionar-se para não perder justamente essa possibilidade de mediação nem fechar canais –já não tem tantos desde o período de Bolsonaro.
O chanceler venezuelano, Yvan Gil Pinto, já conversou por telefone com o brasileiro Mauro Vieira, que antecipou a volta das férias e está a caminho de Brasília. O venezuelano publicou nas redes sociais que Vieira teria expressado “sua forte condenação a este ato sem precedentes de agressão militar criminosa”. Sua declaração aconteceu antes da postagem de Lula.
Está claro que o governo brasileiro também terá de medir as palavras para afastar-se de Maduro, de olho na eleição e nas relações com os EUA. Vemos que tem sido lacônico até onde é possível. Não quer justificar ou apoiar ainda que indiretamente a intervenção de Donald Trump no país vizinho, porque sabe que o precedente é perigoso na região, mas insiste que América Latina tem que ser território de paz. Não é de hoje, vinha falando que ação militar poderia trazer o caos.
Neste momento, a cúpula do governo está reunida para tratar dos próximos passos para lidar com a nova crise na América Latina no terceiro dia do ano eleitoral. A ação de Washington estava no horizonte do governo, que manteve parte da equipe de prontidão. A nota de Lula na rede social X condena a ação militar de maneira forte, o que era esperado. Mas, ao lembrar que o Brasil condena de forma consistente o uso da força “em situações recentes em outros países e regiões”, a manifestação calça o governo para não enfiar o dedo no olho dos EUA diretamente.
A Colômbia, que tem a maior o fronteira com a Venezuela, está apavorada e mandou destacamento de 15 mil homens para a região. O Brasil tem insistido que o maior temor pode ser em relação a migrantes, embora a fronteira com o território brasileiro seja menos porosa.
Ainda não está claro quem será o (novo?) governo na Venezuela. Se fica quem está, sem Maduro, ou se entra outro grupo. Tudo está ainda muito incerto. Os grupos de oposição não têm força para manter a normalidade do país.
Interessante notar o silêncio de Pequim. No Brasil, o governo acha que os chineses vão ser discretos. A prioridade dos chineses é Taiwan e o gesto mostra que não vão querer interferência se atuarem por lá. A Rússia se manifestou também discretamente, diante dos interesses que tem lá. É uma questão de rearranjo das esferas de influência. Uma promessa, aliás, do governo Trump. Em sua nova estratégia inspirada na Doutrina Monroe o governo americano destacou que “os Estados Unidos devem ser proeminentes no hemisfério ocidental, o que é uma condição para nossa segurança e prosperidade, que permite nos afirmarmos com confiança onde e quando necessitarmos na região”.
Veja a íntegra da nota de Lula
“Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional.
Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo.
A condenação ao uso da força é consistente com a posição que o Brasil sempre tem adotado em situações recentes em outros países e regiões.
A ação lembra os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe e ameaça a preservação da região como zona de paz.
A comunidade internacional, por meio da Organização das Nações Unidas, precisa responder de forma vigorosa a esse episódio. O Brasil condena essas ações e segue à disposição para promover a via do diálogo e da cooperação”. É uma nota que condena a ação militar de maneira forte, mas ao lembrar que o Brasil condena de forma consistente o uso da força, calça o governo para não enfiar o dedo no olho dos EUA diretamente.”

