Até poucas semanas, o governo Lula encontrava-se morto arrastando-se como um zumbi sem rumo. Pesquisas de opinião revelavam que até mesmo dentro da base tradicional do lulismo – nordestinos, mulheres, católicos – o governo vinha perdendo apoio de forma preocupante.
Após três anos do governo e do PT afirmando que não era possível adotar nenhuma outra postura que não a “negociação” – leia-se submissão – com um Congresso fisiológico e cada vez mais sedento por poder, finalmente agora o governo ensaia uma “guinada à esquerda”, embora motivada pelo desespero. Este movimento tardio e forçado expõe a fragilidade de um projeto político que sempre preferiu o conforto da conciliação ao risco do confronto necessário.
Informações direto ao ponto sobre o que realmente importa: assine gratuitamente a JOTA Principal, a nova newsletter do JOTA
Lula e os petistas diziam que não era possível fazer nada de diferente ao que já vinha sendo feito devido à “correlação de forças” desfavorável ao governo no Legislativo. Agora estão comprovando que sempre foi possível mudar o rumo dos acontecimentos e buscar o povo para apoiar suas pautas e projetos pressionando o Congresso.
A mudança de estratégia, todavia, não veio por convicção ou pela vontade de transformar profundamente o país, mas por desespero diante da derrubada pelo Congresso do decreto presidencial que aumentava as alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). O estopim do confronto entre Executivo e Legislativo que o país vive, portanto, não foi uma “guinada à esquerda” verdadeira, mas a vontade desesperada de Lula de cumprir com o arcabouço fiscal e o teto de gastos que prendem o governo numa camisa de força.
O exemplo que o Brasil poderia seguir sempre esteve ao lado, como já discutimos aqui em diversos artigos anteriores. O presidente colombiano Gustavo Petro, mesmo com minoria no Congresso, conseguiu aprovar mais reformas populares em seu curto mandato do que todos os governos petistas juntos. O segredo? Chamar o povo para pressionar o Legislativo.
Recentemente, inclusive, Petro sancionou sua reforma trabalhista após oito meses de conflitos e debates com o Legislativo colombiano. Uma das ferramentas de pressão de Petro foi justamente a consulta popular. O presidente ameaçava chamar o povo para decidir a questão por meio de um plebiscito com a elaboração de um decreto e mobilizou seus apoiadores para pressionar os legisladores. Diante disso, os congressistas fizeram uma troca: aprovaram a reforma trabalhista e de aposentadorias, em troca de Petro desistir da consulta.
Após ter indicado o atual presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, Lula ficou sem condições de criticar a política de juros altos. Quando a autoridade monetária estava sob o comando de Roberto Campos Neto, que fora nomeado por Jair Bolsonaro (PL) em seu mandato único no Planalto, era mais fácil direcionar a artilharia contra o BC.
A alternativa foi criar um novo inimigo: o Legislativo que trabalha contra o povo. Embora ele seja real, só está sendo enfrentado agora devido ao desespero do governo e não pela sua real compreensão de como a política deve ser conduzida por um viés de esquerda.
Maquiavel, considerado o pai da ciência política, já dizia na sua obra O príncipe que se um governante tiver que escolher entre ficar ao lado do povo ou dos poderosos, deveria escolher o povo. Segundo o político florentino, o povo é mais fiel e agradecido do que os poderosos, “porque o fim dos grandes é oprimir, e o do povo é não ser oprimido”. Essa diferença fundamental torna o povo um aliado mais natural do príncipe.
As elites, segundo Maquiavel, são mais ambiciosas e menos confiáveis e podem conspirar para tomar o poder do príncipe, enquanto o povo seria menos propenso a conspirações, especialmente quando protegido pelo governante. Uma lição que o PT teima em ignorar há décadas.
Desde o início de seus governos, o PT aposta na conciliação. O foco sempre foi manter a estabilidade política e o crescimento econômico sem incomodar demais os donos do poder. A lógica era clara: garantir avanços sociais sem tocar na desigualdade estrutural, aproveitando o momento econômico mundial favorável com o boom das commodities.
Enquanto o capital aceitava jogar, o pacto parecia funcionar, mas esse acordo sempre teve prazo de validade, que se exauriu em 2013 com as Jornadas de Junho. Foi justamente a tentativa de conciliar as elites com os mais pobres em um cenário de crise econômica e saturação da democracia liberal que conduziu o país aos protestos de 12 anos atrás.
Ali rompeu-se o pacto de conciliação e governabilidade que permitia o país ser governado sob o chamado “presidencialismo de coalizão”. A partir de então, tornou-se necessário escolher um lado – o povo ou as elites – e o governo escolheu errado, traindo sua base e levando um golpe das elites com as quais tentou contemporizar.
Quando voltou ao governo em 2023, o PT tentou repetir o velho roteiro. Aliou-se ao centrão, enviou sinais ao mercado, impôs-se a si mesmo um teto de gastos e escolheu figuras conservadoras para cargos-chave.
Porém, desta vez o Congresso encontra-se ainda mais dominado por projetos de poder extremistas e fisiológicos que desejam governar no lugar do Executivo, controlando o Orçamento, amarrando o governo e abrindo caminho pra 2026.
A esquerda petista, que passou anos recuando em nome da “governabilidade”, agora precisa da força popular que sempre tentou conter. Entretanto, é preciso ser claro: essa mudança de postura não é fruto da coragem, mas do desespero. Não é uma ruptura, mas uma pausa e só se transformará em algo maior se realmente houver uma mudança de projeto. Apenas com a ruptura com o modelo de submissão e, principalmente, com a reconstrução da organização popular como força viva de enfrentamento é possível criar algo concreto.
Não se pode usar o medo do fracasso e a falta de acúmulo de forças como justificativa para não enfrentar os problemas históricos da sociedade brasileira. Correlação de forças se constrói, não é um milagre, e é justamente pela mobilização e trabalho de base junto aos diversos setores da sociedade que ela é criada.
Caso isso não aconteça, esse embate com o Congresso será apenas um capítulo provisório antes da próxima derrota e novamente o povo será chamado pra defender um governo que nunca foi feito por ele e nem para ele.
O tempo da ilusão acabou. A paciência com um pseudorreformismo domesticado se esgotou. Quem quiser disputar o futuro terá que escolher um lado porque o capital já escolheu o seu há muito tempo.
A suposta guinada à esquerda de Lula é, portanto, o último suspiro de quem sempre preferiu negociar com os poderosos a enfrentar o poder. O governo zumbi que se arrasta por Brasília descobriu, tarde demais, que não há conciliação possível com as elites do atraso que governam apenas para si mesmas.
A verdadeira guinada à esquerda exige coragem para romper com o sistema e não apenas administrar as suas crises. Exige escolher o povo e não apenas convocá-lo quando for conveniente. Até que isso aconteça, continuaremos assistindo ao espetáculo melancólico de um governo que, como dizia Leonel Brizola sobre o PT, “cacareja para a esquerda, mas põe ovos à direita”.

