Entender o sistema tributário brasileiro não é tarefa simples. Um médico do interior de São Paulo, no entanto, assumiu a missão de ensinar aos colegas de profissão o que eles precisam saber para assumirem as rédeas das contas de seus consultórios e pagarem menos tributos. Matheus Reis, de 29 anos, teve uma infância simples em Taubaté (SP), estudou em escola pública e cursou Medicina porque via na carreira um meio de ajudar financeiramente os pais. Hoje, o médico-executivo não só provê uma vida confortável para a família como dirige uma empresa com R$ 52 milhões de recuperações fiscais sob gestão.
Matheus Reis é um empreendedor incomum, tanto quanto é um médico incomum. A Back4You é seu segundo negócio em quatro anos – e ele já planeja o lançamento do terceiro. A primeira empresa foi fundada na mesma época em que Reis cursava a faculdade de Medicina pela Universidade de São Paulo (USP), em 2021. “Eu mesmo fui à Junta Comercial abrir a empresa, saindo de um plantão no Hospital Universitário”, conta o executivo.
Esse primeiro negócio foi a io.gringo, uma consultoria para obter cidadania italiana. A exemplo da Back4You, a empresa surgiu da necessidade de Reis e de colegas médicos de lidar com burocracias. Na época, ele era estudante visitante na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, e buscou a cidadania italiana para si, para facilitar o processo de cursar residência naquela universidade. Os professores e colegas passaram a procurá-lo com dúvidas sobre o processo e isso lhe deu o estalo para criar um negócio. Com o sucesso da empresa, Reis acabou não fazendo a residência.
A io.gringo ia bem: acabara de inaugurar um escritório em Roma e preparava expansão para América Latina e Estados Unidos. Reis tinha contratado um executivo vindo da Embraer para substituí-lo no comando da empresa, para que ele próprio pudesse se dedicar à Back4You, que estava nos primeiros meses de existência.
Foi quando, em março de 2025, “aconteceu o caos”, como ele descreve. A Itália endureceu as regras para obtenção de cidadania e restringiu o direito a filhos e netos de italianos. Isso deixava de fora cerca de 95% dos clientes da io.gringo, estima Reis. “De um dia para o outro, em uma canetada, eu não tinha mais nada”, conta.
A decisão foi de parar as vendas e enxugar a empresa para conseguir finalizar os processos em andamento ainda com dinheiro em caixa. Das 116 pessoas que trabalhavam na io.gringo, 70 foram demitidas. A lei italiana ainda pode ser modificada e passará por análise na Corte Constitucional daquele país em março de 2026.
Comunicação e tecnologia
Um ponto em comum entre os empreendimentos em série de Reis é ter informação, comunicação e tecnologia como ativos centrais. Após a crise de março, a io.gringo tornou-se um canal sobre cultura italiana, para além dos serviços que oferecia, com dois milhões de impressões no Google e seis milhões no Instagram. Da mesma forma, a Back4You pretende educar médicos sobre os principais pontos da vida contábil e tributária deles. Para isso investiu R$ 1 milhão em 2025 em uma plataforma de educação.
“O cliente tem que necessariamente ser alguém que quer aprender. Se ele só quer terceirizar, não é meu cliente”, afirma Reis. “O maior ponto é eu conseguir ser didático e fazer o cliente se tornar protagonista da gestão tributária e financeira dele.”
Revisão e crédito tributário
A Back4You nasceu a partir do pedido de ajuda de um colega médico a Reis. O profissional precisava de assessoria para vender uma clínica de reprodução humana. Durante a análise do negócio, Reis identificou um crédito tributário de R$ 10 milhões, o que ajudou a precificar a venda de forma adequada.
“Aí eu entendi: existe possibilidade aqui”, conta o executivo. O primeiro produto da empresa seria de recuperação tributária para clínicas e médicos que fazem procedimentos que podem ensejar uma alíquota reduzida. À medida que atendia os profissionais da saúde, Reis identificava outras demandas, como de controladoria, contabilidade e finanças. Foi, então, ampliando a oferta.
“O maior problema do médico hoje é que ele não tem visão do negócio dele, quanto está entrando, qual a despesa, qual o lucro efetivo, quanto vai pagar de imposto trimestral.”
Com a revisão tributária, a Back4You conseguiu reduzir em até 70% o imposto pago por cirurgiões. A equiparação de empresas médicas a hospitais é um dos meios de diminuir os impostos cobrados. A companhia concentra a atuação em profissionais com faturamento entre R$ 120 mil e R$ 150 mil mensais. Reis relata que encontrou erros contábeis em todos os clientes que atendeu até hoje e que um dos casos originou um processo do cliente contra o antigo escritório de contabilidade.
Reis afirma que busca entender a fundo tanto o universo médico quanto o do Direito Tributário e unir esses conhecimentos em uma linguagem que faça sentido para os clientes. Na companhia, Reis conta com um time de advogados tributaristas, contadores e auditores, além da equipe de vendas. O diretor de operações é, como ele, um médico.
Hoje, a empresa tem parcerias com grupos cirúrgicos que atendem nos hospitais Sírio-Libanês, Albert Einstein, Rede D’Or e Oswaldo Cruz.
Cara e coragem
Essa característica relacional do negócio casa com a personalidade de Reis, que conseguiu dois grandes feitos da vida se apresentando e propondo trocas, no melhor estilo “cara e coragem”.
Quando decidiu cursar Medicina na USP, ligou para o melhor cursinho pré-vestibular da cidade e pediu uma bolsa. Como não havia bolsa, se ofereceu para trabalhar. Conseguiu, passou no vestibular e seguiu por anos dando aula na escola.
Em outra ocasião, aos 20 anos e determinado a andar de avião pela primeira vez, enviou e-mail para dezenas de ONGs com atuação internacional oferecendo trabalho voluntário. Uma delas respondeu, e ele viajou ao Peru para ajudar crianças com câncer.
Dessa mesma investida veio a chance de participar de um programa da Organização das Nações Unidas (ONU) que o levou para a Assembleia-Geral da entidade, em Nova York.
Filho de uma vendedora e de um trabalhador da linha de produção da Volkswagen em Taubaté, Reis só passou a considerar a faculdade um caminho ao entrar para o Colégio Embraer, em São José dos Campos.
Para ingressar lá no Ensino Médio, passou por uma seleção com provas e conta que teve o apoio de uma professora da escola pública em que estudava. Ela disse que, se estudasse, Reis tinha condições de ingressar no Colégio Embraer. Com ajuda de uma apostila antiga, ele foi aprovado em 9º lugar, de 120 vagas.

