Falta de marco legal, tempo para liberação de minas, mapeamento de reservas e instabilidade de mercado ainda são entraves para avanço do setor no Brasil Macroeconomia, CNN Brasil Money, Minerais, PIB (Produto Interno Bruto), Terras raras CNN Brasil
Se o Brasil investir na produção dos chamados minerais críticos, a economia pode expandir até R$ 243 bilhões nos próximos 25 anos, segundo relatório de Solange Srour, diretora de Macroeconomia do UBS GWM e colunista do CNN Money.
Srour traça três possibilidades:
- Cenário 1: seguir investindo na mineração no ritmo atual deve acrescentar R$ 47 bilhões ao PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro;
- Cenário 2: se além de investir em novas minas o país começar a beneficiar os minérios extraídos, agregando valor, pode ver um salto de R$ 233 bilhões até 2050;
- Cenário 3: o impacto econômico será ainda maior se o Brasil der um passo a frente e refinar os minerais, podendo registrar um incremento de R$ 244 bilhões no PIB.
Também chamados de terras raras, estes metais são cobiçados no mercado por suas características, como condutividade, magnestismo, luminescência e o fato de serem tipicamente macios, maleáveis e dúcteis, além de geralmente reativos a temperaturas.
São eles os componentes básicos de chips, motores elétricos, baterias, turbinas eólicas e outros exemplos de alta tecnologia.
Demanda
Os minerais críticos são extremamente valiosos sobretudo pelo processo trabalhoso por trás de seu refino e adaptação do material bruto para aplicação em tecnologia.
A demanda pelas terras raras supera a oferta atual, e a tendência é a necessidade por essa matéria-prima continuar crescendo impulsionada pela transição energética.
Quem domina esse mercado hoje é a China, que detém a maior reserva (48% do material disponível no mundo) e produção (69%) destes minerais no mundo. Em 2009, o gigante asiático controlava 98% do setor, devido a custos menores de produção e mão de obra barata.
“Historicamente, a China é líder em produção de terras raras. No passado, em um momento em que países do ocidente terceirizaram a obtenção desse produto, o país investiu fortemente no aprimoramento de tecnologias de extração e se beneficiou de uma lei ambiental menos rígida, consequentemente consolidando-se como líder dessa cadeia produtiva”, explica Srour no relatório.
O problema que a economista destaca é que, de um ponto de vista de cadeias globais, há o risco de dependência e vulnerabilidade estratégica à China quando o assunto é o acesso ao minerais críticos. Não obstante, a limitação das vendas de terras raras tem sido a principal carta na manga de Pequim nas negociações comerciais com os Estados Unidos.
“Desde o inicio do primeiro governo Trump (2017), é possível perceber que a participação já notável da China aumentou ainda mais. […] Essa movimentação de expansão pode ser interpretada como uma vontade de aumento do poder de barganha chinês, principalmente sobre os EUA“, pontua a colunista do CNN Money.
Apesar da baixa produção, o Brasil fica em segundo lugar no ranking das maiores reservas de terras raras.
Potenciais e riscos
“No Brasil, as terras raras são encontradas nas areias monazíticas do litoral e principalmente em jazidas próximas a vulcões extintos. É provável que as reservas brasileiras sejam muito maiores do que está comprovado atualmente, em especial na Amazônia”, pondera Srour.
Atualmente, foram mapeadas 35 reservas no país, localizadas em:
- Minas Gerais: 6;
- Espírito Santo: 4;
- Bahia: 4;
- Ceará: 4;
- Rio de Janeiro: 3;
- Paraná: 3;
- Amazonas: 2;
- Goiânia: 2;
- Rondônia: 1;
- Roraima: 1;
- Pará: 1;
- Tocantins: 1;
- Maranhão: 1;
- Piauí: 1;
- Santa Catarina: 1.
A riqueza é hoje pouco explorada, segundo a economista, devido ao custo da tecnologia de extração e separação, o que obriga o país a importar esses elementos para usar como matéria-prima nas indústrias, principalmente da China.
Além do valor da produção, Srour destaca como entraves para o avanço:
- A falta de um marco legal: sem ambiente regulatório seguro, o país perde atratividade e competitividade ante o mercado global;
- Demora na liberação da exploração de novas minas: leva cerca de 16 anos em média – prazo extenso devido também as licenças necessárias – e exige investimentos de longo prazo e políticas públicas alinhadas;
- Avanços necessários no mapeamento de reservas: apenas 35% do território brasileiro foi mapeado em termos de potencial mineral;
- Instabilidade de mercado: guerras, falta de legislação apropriada, falhas na cadeia de suprimentos, concentração de refino e investimentos aquém do necessário geram gargalos no setor.

