As mudanças nas normas para tirar a primeira habilitação de motorista, que levaram à criação do app CNH do Brasil, já estão valendo e as autoescolas foram forçadas a se adaptar. Algumas já oferecem preços mais baixos e pacotes com menos aulas para atender os clientes. Porém, isso pode não ser bom para todas as pessoas que querem ou precisam tirar sua CNH.
As novas diretrizes do Senatran derrubaram uma série de exigências e a adaptação precisa ser rápida. Esse é um dos principais pontos de reclamação por parte dos proprietários de autoescola: “Fiquei muito ‘P’ da vida. Foi algo jogado de qualquer jeito para nós”, reclama Fátima Goldane, dona da autoescola Paris, na zona norte de São Paulo.
Em sua autoescola, Fátima adotou o preço de R$ 150 por aula e não trabalha com pacotes fechados, como outras estão fazendo. Para ela, cada aluno é um caso e precisa ser atendido conforme sua necessidade.
“Eu busco entender o que o aluno precisa para atendê-lo. Se chegar uma pessoa que nunca dirigiu, eu não vou sugerir que ele faça duas aulas e nem vou entregar meu carro para que ele faça o exame prático”, explica Goldane. Antes da mudança, o preço praticado para as 20 aulas obrigatórias mais o curso de formação de condutores (CFC) era de R$ 1.200. Fátima afirma que o seu fluxo de caixa foi “lá para baixo” e ainda está tentando se adequar às mudanças.
Apesar de a legislação ter reduzido o número de horas de aulas de direção para apenas duas, o que sai muito mas barato, essa vantagem só é válida para as pessoas que já sabem dirigir, explica a proprietária. Na prática, só tirar a carteira ficou mais barato mas, para quem precisa aprender a dirigir, o processo inteiro tende a ficar mais caro.

Basta fazer a matemática simples: para cumprir as mesmas 20 aulas na autoescola Paris, hoje, o aluno gastará R$ 3.000. De acordo com a proprietária. as novas normas fazem com que seja financeiramente inviável manter o preço antigo.
Érica Nascimento, funcionária da rede de autoescolas Hulk e responsável pela unidade da Av. Giovanni Gronchi, na Zona Sul de São Paulo, afirma que a novidade atraiu interessados, porém são poucos os que fecham negócio. “Os alunos chegam atraídos pelo preço novo. Mas os que não sabem dirigir acabam desistindo porque o preço está mais alto”.
A autoescola Hulk oferece um pacote básico por R$ 650, que inclui as duas aulas obrigatórias, o carro para a primeira tentativa da prova prática e um acompanhamento em todas as etapas do processo. O mesmo pacote com cinco aulas sobe para R$ 1.075, e com dez aulas o valor é de R$ 1.450, bem próximo do preço antigo de R$ 1.650 para 20 aulas. Isso fora as taxas obrigatórias e exames, que são pagos diretamente para o Detran.
Se dependesse apenas do número mínimo de aulas, Érica afirma que as contas da sua autoescola não fechariam, já que é necessário fazer o pagamentos das contas, instrutores e funcionários da recepção e limpeza das unidades. Fátima ainda acrescenta à essa lista as taxas impostas pelo Detran e a manutenção dos carros.
“São gastos que um instrutor autônomo não tem”, observa a dona da autoescola Paris. Nesse caso, os instrutores que atuam de forma autônoma não precisam de um carro próprio, podendo usar os veículos dos clientes para as aulas e prova.
Recorrer aos instrutores autônomos e ao uso de carros particulares ainda é um meio para deixar mais baixo o custo total de aprender a dirigir. Fátima não vê com maus olhos essa mudança e afirma que há mercado para todos. Entretanto, acha que as cobranças deveriam ser mais justas e as autoescolas ainda estão presas a uma legislação antiga.
“Instrutor autônomo não é concorrência. São Paulo é muito grande, uns vão querer continuar contratados, outros preferem a autonomia. Porém, eu preciso pagar muita coisa para o Detran, o autônomo não. Eu tive que fazer muita coisa sem necessidade.”, explica Fátima utilizando como exemplo a estrutura construída que deve seguir os padrões do Detran. Há, por exemplo, normas para o tamanho e para a estrutura da sala para o CFC, sendo que hoje a preparação do candidato a motorista para a prova teórica pode ser feita online por meio do aplicativo CNH do Brasil.
Funciona, mas pode melhorar

Para tentar contornar a situação, muitas autoescolas estão criando novas formas de arrecadação. Na Hulk, se o aluno só precisar do carro para o exame, o valor é de R$ 300. Eles também prestam um serviço de assessoria, ajudando o candidato a marcar exames e provas por R$ 150.
Há quem discorde desse novo modelo. Fátima, por exemplo, diz que só disponibiliza seu veículo se o aluno provar que sabe dirigir. “Meu carro não custa ‘X’ reais. Se ele quiser usar para fazer a prova, primeiro tem que me mostrar que sabe dirigir e que está apto para a prova. Então ele vem, faz as duas aulas e, se tiver tudo certo, a gente conversa sobre o assunto.”
Fátima concorda que o novo sistema favorece aqueles que já sabem dirigir, mas chega a achar “hilário” ter apenas duas aulas obrigatórias. A proprietária também expõe outro problema, relacionado ao formato como as aulas são registradas.
Antes, o aluno precisava ir à autoescola e registrar o início e o fim da aula com sua digital. O Contran excluiu a necessidade de biometria nesta etapa do processo das aulas. A comprovação da aula se dá pela inscrição da informação em sistema público, seja o eCNH (São Paulo) ou o Portal Senatran (Governo Federal), o que abre maiores margens para fraudes.
Apesar de discordar de muitos aspectos, em especial na maneira como as novas normas foram impostas e divulgadas para a população, Fátima diz que a mudança poderá ser boa: “A resolução é boa. O dono [de autoescola] que não falar que é boa é mentiroso. Mas há mudanças que precisam ser feitas.”
Para ela, as questões educacionais e de aprendizagem precisam ser melhor resolvidas. Além disso, apesar de facilitar para os alunos, a lei parece ignorar como as autoescolas funcionam — ou funcionavam. A proprietária sugere que adaptações sejam feitas para que as melhorias sejam vistas dos dois lados. “A autoescola não tem culpa. A gente cobra esse preço porque nos são impostas muitas taxas.”
Entre os exemplos, ela cita o processo para se tornar instrutor. Diferente do modelo atual que pode ser feito em menos de uma hora e é gratuito, antes havia taxas a serem pagas para formação e renovação do direito de instruir, além do tempo dedicado para o curso.
Conforme relatado pelas entrevistadas, tudo é muito novo e processo de adaptação ainda está no começo. O certo é que muitas mudanças ainda virão. Algumas podem ser drásticas. Em uma rede maior, como a Hulk, é provável que o quadro de funcionários precise ser adaptado.
Atualmente, entre todas as filiais da autoescola, há cerca de 40 funcionários para diferentes funções, distribuídos entre as seis unidades. Por enquanto, vai continuar assim, mas tendência é que o número diminua, não só nessa rede, como em outras.

