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“O Agente Secreto” e outros: como filmes ajudam a ensinar história 

Última atualização: 12 de janeiro de 2026 16:05
Published 12 de janeiro de 2026
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Professores usam sucesso de produções premiadas para debater temas como ditadura e diferença de classes para atrair alunos em meio à desinformação digital  Educação, Ainda Estou Aqui, Globo de Ouro, História, O Agente Secreto, Professores, sala de aula CNN Brasil

Contents
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A conquista de dois prêmios do Globo de Ouro 2026 pelo filme “O Agente Secreto”, na madrugada desta segunda-feira (12), reacende o interesse público pelo cinema nacional. Mas nas salas de aula, vira instrumento de aprendizado.

Com direção de Kleber Mendonça Filho, a produção venceu na categoria Melhor Filme de Língua Não Inglesa, enquanto Wagner Moura recebeu o troféu de Melhor Ator em Filme de Drama.

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O feito reforça o caminho aberto um ano antes por “Ainda Estou Aqui”, ganhador do Oscar de Melhor Filme Internacional e que rendeu indicação à Fernanda Torres, que antes também levou o Globo de Ouro.

O impacto dessas obras chega às salas de aula, onde o audiovisual se consolida como ferramenta pedagógica essencial.

Marcos Vinicius de Paula, professor de história e sociologia e autor do livro “Corpo Estranho”, diz que filmes funcionam como um sintetizador de acontecimentos históricos, sociológicos e filosóficos.

“O audiovisual tem o poder de sintetizar o acontecimento. Às vezes é melhor que uma aula, ele explica melhor do que uma aula expositiva.”

Gerson de Moraes, cientista político e professor de história e teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, corrobora a importância do cinema, avaliando que o domínio do noticiário por essas produções desperta nos jovens uma busca por informações.

O desafio, segundo Moraes, é que a escola compete com fontes digitais sem credibilidade, onde há dados enviesados.

Moraes afirma que filmes como os brasileiros premiados tocam em feridas abertas ao retratar a violência de um Estado que não permitia o contraditório. “Trata-se de dados, fontes, pessoas foram mortas, torturadas e desapareceram. Um regime ditatorial foi estabelecido em um contexto de guerra fria no Brasil.”

O docente observa que, para uma geração que não viveu o período, existe o risco de uma visão romantizada do regime militar, associada a ideais de ordem. Para ele, o cinema atua como ferramenta para desconstruir essa percepção asséptica.

Moraes sugere o uso de recortes das obras para gerar debates pontuais, citando também longas como “Batismo de Sangue” (2006) e o indicado ao Oscar “O Que É Isso, Companheiro?” (1997).

Preservar a memória

Marcos Vinicius, por sua vez, mesmo admitindo não ter assistido ainda às obras recentes, utiliza a repercussão delas como gancho pedagógico.

Ele abordou em classe o desaparecimento do deputado federal por São Paulo Rubens Paiva, retratado no filme vencedor do Oscar, e a questão da memória, aproveitando a curiosidade dos estudantes impulsionada pela cerimônia em Hollywood.

Filmes, segundo o professor, permitem tratar tanto das tramas políticas macroscópicas quanto das perseguições individuais.

Marcos Vinicius complementa que a revisitação da memória da ditadura militar é fundamental para a preservação da democracia. “Um regime que provoca desaparecimentos tem que ser repudiado para sempre. O desaparecimento é um dos fatores da repressão.”

O professor ressalta a importância de a educação mostrar que, apesar dos defeitos, a democracia é sempre superior a qualquer regime autocrático, e que a história serve para evitar a repetição de erros passados.

Para além da ditadura

Ampliando o repertório para além do tema estrito da ditadura, Marcos Vinicius utiliza o curta-metragem “O Dia em que Dorival Encarou a Guarda” (1986), de Jorge Furtado, para discutir racismo estrutural e hierarquia, narrando a história de um detento negro impedido de tomar banho.

Já para ilustrar a interferência norte-americana no golpe de 1964, traçando paralelos com a geopolítica atual e a Venezuela, ele recorre ao documentário “O Dia Que Durou 21 Anos” (2012).

O professor também recorre a “Que Horas Ela Volta?” (2015), protagonizado por Regina Casé. O filme explora as tensões de classe no Brasil através da história de Val, empregada doméstica que vive há anos na casa de seus patrões em São Paulo.

“A chegada de sua filha, Jéssica, vinda do Nordeste para prestar vestibular, desestabiliza a dinâmica familiar e expõe as diferenças sociais e hierarquias veladas no ambiente da mansão.”

Ele lembra ainda dos três anos dos ataques de 8 de janeiro, que é tema de outra obra brasileira rumo ao Oscar, “Apocalipse nos Trópicos” (2024).

Cinema em sala de aula

A experiência com o cinema em sala de aula também é vivenciada por Felicce Fatarelli Fazzolari, professor de história, sociologia e filosofia. Desde 2021, ele desenvolve o projeto “Interlocuções Culturais”.

Em 2023, durante aulas sobre patrimônios culturais e cinema, o professor utilizou o filme “Bacurau” (2019) como material didático.

Fazzolari explica que citou “Bacurau” em aulas sobre museus e memória, por mostrar o museu da cidade, e também na disciplina de cinema, como um dos maiores filmes nacionais.

Ele passou a obra para os alunos em duas escolas, e a recepção foi entusiasmada. “Bacurau, adoraram, piraram no filme”, afirma o professor, destacando que as discussões geradas pelo filme eram “fantásticas, especialmente em turmas onde a parte teórica não engajava”.

Buscando aprofundar a experiência, Fazzolari entrou em contato com artistas que participaram do filme, e a atriz Ali Willow respondeu ao convite. Ela participou de uma aula que, segundo o professor, foi espetacular, reforçando o potencial do cinema para engajar os estudantes e enriquecer o aprendizado.

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