No último dia 2 de setembro, o cenário político foi movimentado pelo anúncio da saída do União Brasil e do PP da base do governo Lula no Congresso Nacional até o fim do mês. Em comunicado aos parlamentares, a federação União Progressista informou que “todos os detentores de mandato devem renunciar a qualquer função que ocupem no governo federal”, com possíveis punições disciplinares. Nas palavras dos dirigentes, a decisão “representa um gesto de clareza e coerência”. A decisão atinge diretamente os ministros André Fufuca (PP), do Ministério do Esporte, e Celso Sabino (União), do Ministério do Turismo.
No entanto, nesta quinta-feira (18/9) a Executiva Nacional do União Brasil decidiu, por unanimidade, que seus filiados devem antecipar a saída do governo Lula devido a uma acusação de que o presidente do partido, Antonio Rueda, seria proprietário de aeronaves supostamente operadas pelo PCC.
Conheça o JOTA PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transparência e previsibilidade para empresas
Ao todo, os dois partidos reúnem 109 parlamentares na Câmara dos Deputados (a maior bancada da Casa) e formam a federação União Progressista. No Senado, são 14 filiados em ambos os partidos.
Nesse cenário, cientistas políticos e analistas observam a saída de ambos os partidos como uma tentativa de herdar os votos dos bolsonaristas nas eleições de 2026, já que a saída também representou uma aproximação com a pauta mais cara do momento para essa ala: a anistia aos réus do 8 de janeiro.
Se aprovarem a anistia, parlamentares do PP e do União sairão como parceiros de Bolsonaro na organização da campanha eleitoral. Se não conseguirem a aprovação ou se houver uma eventual derrubada no STF, o discurso tende a mudar para “tentamos, mas não deu certo; apesar disso, votem em nós”.
Mas qual seria o real impacto para o governo? E para os próprios partidos no cenário eleitoral? O intuito, aqui, é revisar os dados de assentos ocupados e os dados já existentes sobre como esses partidos têm votado para ver se, na prática, já estavam ou não na base governista.
Para analisar o comportamento nas votações, os dados foram coletados do Radar do Congresso em Foco. Parte-se da taxa de governismo de cada parlamentar da Câmara dos Deputados e do Senado. Essa taxa é calculada da seguinte maneira: divide-se o número de votações que o parlamentar participou e que acompanharam a orientação do governo pelo total de votações em que ele esteve presente, independentemente do posicionamento adotado.
O PP e o União detêm, juntos, cerca de 20% das cadeiras da Câmara e 16% no Senado. Na Câmara, 40% das cadeiras do PP e 35,6% do União estão concentradas no Nordeste, região decisiva e fortemente simpática à eleição de Lula, e que possui a maior taxa de governismo entre todas as regiões do país (80,6%). No Senado, o União possui apenas uma cadeira na região (14,3% do total do partido na Casa), enquanto o PP concentra 42,9% de suas cadeiras do Senado no Nordeste, onde o governismo chega a 88,6% nessa Casa.
Embora a saída dos partidos da base governista tenha sido anunciada como estratégia de aproximação a Bolsonaro, essa forte presença em uma região pouco simpática ao ex-presidente pode limitar os ganhos políticos, e não está claro se isso foi considerado pelas lideranças.
Em termos de apoio junto ao governo Lula, em 2025, a taxa média de governismo foi de 71,8% na Câmara e 78,9% no Senado. Na Câmara dos Deputados, o PP registrava uma taxa média de governismo de 74,2%, acima da média geral da Casa. Ainda que a mediana de 82% sugira que mais da metade dos deputados do partido votou em alinhamento com a posição governista, a elevada amplitude de 81 pontos percentuais aponta forte dispersão, com o deputado menos governista sendo Evair Vieira de Melo (PP-ES), com 19%, e o mais governista, André Abdon (PP-AP), que acompanhou o governo em todas as votações (100%).
O União Brasil, por sua vez, apresentava uma taxa menor, de 67,2%. A mediana de 77% indica que a maioria de seus deputados também acompanhava o governo em parte considerável das votações, mas em intensidade inferior à observada no PP. A amplitude de 75 pontos percentuais ilustra, também, uma dispersão: enquanto o deputado Nicoletti (União-RR) aparece como o menos governista da bancada, com apenas 23%, a deputada Daniela do Waguinho (União-RJ) figura no extremo oposto, com 98% de alinhamento.
Isso mostra que mesmo quando eram formalmente aliados, o PP e o União já operavam de modo pragmático, variando seu apoio conforme o tema em debate e as contrapartidas negociadas. Não só isso, como também há uma liberdade maior para que os deputados tomem as suas decisões, destoando das orientações das lideranças.
No Senado, o PP apresentou uma média de 69,3% de alinhamento com o governo. A mediana de 65% mostra que o partido teve ainda menos senadores apoiando o governo do que deputados. Contudo, a amplitude de 32 pontos percentuais demonstra que o apoio, embora pequeno, foi mais consistente do que na outra Casa.
Isso se torna mais perceptível com as taxas individuais de governismo de seus senadores, sendo Daniella Ribeiro (PP-PB) a mais governista do partido no Senado, com 89% de alinhamento, enquanto Luis Carlos Heinze (PP-RS) foi o que menos acompanhou o governo, com uma taxa de 57%. Apesar de não ser uma dispersão tão gritante quanto à que ocorre na Câmara, ela ainda expõe que o PP não forma uma base segura para as pautas governistas no Senado.
No União Brasil, tem-se uma média de 78,5% de apoio dos senadores às pautas governistas, sendo maior que a taxa do PP, na Câmara e no Senado, e até maior que a média do próprio partido na Câmara. Com uma mediana de 82,5% e amplitude de 40%, ambas maiores que o PP, o União também demonstra uma dispersão. Esta se expressa no apoio ao governo individualmente: a senadora Professora Dorinha (União-TO) é a maior governista de seu partido no Senado, apresentando uma taxa de 91%, enquanto Sergio Moro (União-PR) foi o que demonstrou menor apoio, com uma taxa de 59%. Vale ressaltar que o União possui seis cadeiras no Senado, e o PP, duas a mais.
Assine gratuitamente a newsletter Últimas Notícias do JOTA e receba as principais notícias jurídicas e políticas do dia no seu email
Mesmo antes da ruptura formal com o governo, PP e União Brasil já atuavam de maneira pragmática e com baixa coesão interna, compondo uma base fragilizada e pouco confiável para o Executivo. A saída oficial, portanto, parece mais um gesto simbólico e estratégico voltado à disputa eleitoral de 2026 do que uma mudança concreta no padrão de comportamento na arena legislativa.
No entanto, o movimento desses partidos encontra um ponto de tensão importante: suas bancadas no Nordeste, região central para a governabilidade de Lula e marcada por altas taxas de governismo nas duas casas. Ao mesmo tempo em que buscam se alinhar ao bolsonarismo por meio da defesa da anistia aos réus do 8 de janeiro, PP e União precisam calibrar essa estratégia diante de sua presença em um território onde o apoio ao governo federal é majoritário. A aposta na anistia pode se tornar tanto um ativo quanto um risco na relação com seus eleitores e no jogo de forças dentro do Congresso.

