Rogerio Ferraraz, professor doutor e especialista de televisão, explica que deixar a personagem de Debora Bloch viva reforça a imagem que o crime compensa no país Entretenimento, #CNNPop, Debora Bloch, Vale Tudo CNN Brasil
O final de Odete Roitman em “Vale Tudo” continua como um dos assuntos mais comentados do momento nas redes sociais e rodas de conversas e a CNN procurou um especialista para comentar o principal desfecho da trama de Manuela Dias. Enquanto o público aguardava pela resposta da pergunta “quem matou Odete Roitman?”, a autora optou por não matá-la e a vilã fugiu para fora do país.
A personagem vivida por Deborah Bloch, na verdade, levou um tiro disparado por Marco Aurélio (Alexandre Nero) durante uma discussão, mas sobreviveu, acordou dentro do carro do IML e passou por uma cirurgia que garantiu a sobrevivência dela.
Rogerio Ferraraz, pesquisador, professor doutor da Universidade de São Paulo, especialista em televisão e coordenador de estudos de telenovelas, não se sentiu plenamente satisfeito com o final da personagem de Debora Bloch. Ele salienta que — diferentemente da versão de 1988 — a sobrevivência de Odete Roitman reforça estereótipos de que a desonestidade compensa no Brasil.
“A própria história mostra que a desonestidade ainda vence. Na versão original, Odete [Beatriz Segall] morre e a protagonista Raquel [Regina Duarte] representava a vitória da honestidade. Já agora, a novela termina com Odete viva, o que muda completamente o sentido. Essa ambiguidade pode ser vista como um reflexo do Brasil: um país onde a honestidade existe, mas a desonestidade ainda tem muito espaço”, explica. “Raquel, símbolo da honestidade, perdeu força ao longo da trama. Isso reforça essa mensagem ambígua. A decisão de manter Odete viva também está ligada ao sucesso da personagem com o público”, pontua.
O Brasil é um dos maiores produtores de novelas do planeta, mas a audiência das tramas televisivas tem diminuído ano após ano, principalmente depois da popularização das redes sociais e da criação dos streamings, quando o público teve acesso a mais opções para o entretenimento. De todo modo, Ferraraz salienta que o final de “Vale Tudo” mostra que as telenovelas ainda estão vivas, latentes, e conseguem mobilizar um país inteiro que aguarda o desfecho de uma história.
“É claro que o contexto é diferente do que tínhamos quando a primeira versão de ‘Vale Tudo’ foi exibida. Mesmo assim, é interessante ver como a novela ainda é talvez o produto audiovisual de maior impacto da nossa indústria. A televisão precisou se adaptar a esse novo cenário, e a telenovela, como parte desse sistema, também. Isso trouxe ganhos e perdas –há bônus e ônus. Como pesquisador de teledramaturgia, fico feliz em ver que a novela continua mostrando sua importância. Muita gente pregava o ‘fim da televisão’ ou o ‘fim da novela’, e isso não aconteceu. O remake de ‘Vale Tudo’ mostrou que a força do gênero permanece”, comemora.
Ferraraz também faz críticas ao excesso de publicidades dentro da trama de Manuela Dias, o que levou a Globo ter um recorde de faturamento com “Vale Tudo”. Segundo a revista Exame, a novela foi o produto de maior rendimento da história da Globo na faixa das 21h, com faturamento superior a R$ 200 milhões até o mês passado. O professor salienta que, no capítulo final, isso ficou ainda mais evidente, pois parecia que o episódio foi estendido com situações irrelevantes, apenas para incluir mais publicidade.
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1 de 17Marco Aurélio empunha arma contra Odete Roitman • TV Globo
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2 de 17Maria de Fátima no último capítulo de Vale Tudo • TV Globo
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3 de 17Solange e Afonso no último capítulo de “Vale Tudo” • TV Globo
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4 de 17Odete Roitman sobrevive a tiro • TV Globo
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5 de 17Marco Aurélio e Leila, ambos com tornozeleira eletrônica • TV Globo
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6 de 17Casamento de Raquel e Ivan no capitulo final de “Vale Tudo” • TV Globo
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7 de 17Marco Aurélio • TV Globo
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8 de 17Poliana convida Marieta para morar com ele • TV Globo
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9 de 17Marco Aurélio conversa com o filho na delegacia • TV Globo
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10 de 17Marco Aurélio • TV Globo
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11 de 17Fátima e marido no último capítulo de “Vale Tudo” • TV Globo
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12 de 17Fátima e César no último capítulo de “Vale Tudo” • TV Globo
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13 de 17Maria de Fátima • TV Globo
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14 de 17Maria de Fátima • TV Globo
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15 de 17Marco Aurélio e Leila, ambos com tornozeleira eletrônica • TV Globo
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16 de 17Marco Aurélio e Odete • TV GLobo
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17 de 17Odete Roitman sobrevive a tiro • TV Globo
“Isso incomodou o público, especialmente nas últimas semanas, mas para a emissora foi um sucesso absoluto. Comercialmente, foi uma vitória. Dramaturgicamente, prejudicou o ritmo da história, embora a autora não tenha responsabilidade direta por isso — ela precisou adaptar o roteiro a essas demandas.”
Ele destaca que, artisticamente, o remake parece ter abraçado um tom cômico que quase transformou a novela em paródia do original. Ferraraz diz que houve situações que beiravam o exagero, e “até o trash”, o que alimentou o engajamento nas redes.
“As pessoas faziam memes e brincadeiras com as cenas. Mas esse humor contaminou até os núcleos mais dramáticos, comprometendo a profundidade da narrativa. Um exemplo é o personagem César [Cauã Reymond], que virou um alívio cômico. Ele perdeu toda a aura de sedutor que tinha na versão original [vivido por Carlos Alberto Riccelli], e isso fez muitos questionarem se fazia sentido Odete se apaixonar por ele. Esse tipo de mudança afetou o equilíbrio entre drama e humor.”
Por fim, o professor especialista também faz elogios ao caminho trilhado por algumas personagens, como Maria de Fátima, vivida por Bella Campos, que se mostrou uma influencer que ansiava por ser rica e famosa, algo semelhante ao que acontece com muitas jovens de hoje em dia.
“É inegável que houve acertos importantes. A adaptação da personagem Fátima, por exemplo, foi muito bem-feita, atualizada para o contexto das redes sociais. E a própria Odete Roitman continua sendo uma personagem extraordinária. No fim, há muitos méritos e também muitas falhas, mas o sucesso comercial e o engajamento do público mostram que ‘Vale Tudo’ continua sendo um fenômeno”, finaliza.
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