O Palácio do Planalto ainda tenta entender os efeitos na política brasileira do ataque americano a Caracas, que resultou na prisão de Nicolás Maduro. Há semanas, interlocutores do presidente Lula esperavam uma ação militar dos EUA em solo venezuelano. Mas uma incursão que incluísse a captura do líder chavista não estava nos cálculos e pegou todos em Brasília de surpresa.
Enquanto a diplomacia tenta seguir a cartilha Oswaldo Aranha – defesa do direito internacional e da não intervenção de nações estrangeiras na política interna de outros países –, auxiliares de Lula em outras áreas-chave, como a articulação política e a comunicação, traçam estratégias para lidar com mais um problema importado do exterior com potencial impacto para a imagem do presidente, agora em pleno ano eleitoral.
Um fato tido como inequívoco é que o episódio foi negativo para Lula, dada a rejeição difusa em vastos setores da população à figura de Maduro e o regime ditatorial que ele implementou na Venezuela.
A ação de Trump, ainda que contestável do ponto de vista legal, levou a oposição a retirar velhos esqueletos do armário de Lula, reforçando sua antiga ligação com o chavismo.
Vídeos do presidente brasileiro elogiando o líder chavista agora preso em Nova York passaram a pipocar nas redes sociais. Apesar do recente afastamento do petista em relação a Caracas, há demonstrações recentes de afeto registradas pelas câmeras — como quando Lula disse a jornalistas ao receber Maduro no Itamaraty que o venezuelano não era um “homem mau”, em maio de 2023.
Más notícias e algum alento nas redes
Ainda não havia nesta segunda-feira (5/1) uma pesquisa consolidada da Secom sobre a percepção popular a respeito da operação americana. Mas estudos com monitoramento de redes, alguns feitos por profissionais independentes com ligações com o PT, chegavam em profusão no WhatsApp de ministros e assessores palacianos. E mostravam um apoio majoritário à ação americana e à deposição de Maduro.
Mas certas tendências davam um certo alívio a Lula e seus auxiliares. Alguns monitoramentos mostravam que, com o passar dos dias, aumentaram nas redes as manifestações questionando a legitimidade de Washington para realizar um ataque do gênero. Também há um crescente número de postagens criticando o “imperialismo americano”. E a guerra de narrativa, sobre se o que houve foi uma “captura” legítima de um “narcoterrorista” ou o “sequestro” de um presidente de um país soberano ganhava contornos cada vez maiores de equilíbrio.
Outro alento para o governo, talvez o principal, é a avaliação de que o tema Venezuela pode causar danos, mas dificilmente será decisivo na eleição presidencial de outubro.
A repercussão na imprensa brasileira e internacional também agradou o Planalto. Ministros e assessores comemoravam o fato de que os jornais brasileiros condenaram em editoriais, de forma uníssona, o ataque orquestrado por Trump. No sábado, além disso, ao ser informado pelo ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, em uma reunião de emergência sobre um editorial do jornal americano The New York Times, Lula desabafou: “Que bom que o posicionamento deles é igual ao meu”.
Maduro indefensável
Lula e seu entorno sabem que Maduro é indefensável. Assim, parte da estratégia do presidente é manter-se o mais distante possível do antigo aliado. Maduro sequer foi nominalmente citado na postagem em que o petista diz que a operação militar americana ultrapassou “uma linha aceitável”.
Sem ter muito mais o que fazer, a opção do governo no momento tem sido insistir no discurso de defesa da soberania, que alguns dentro do próprio Planalto admitem não ter o mesmo impacto e contexto da época do “tarifaço”.
Mas o governo aposta que, com o passar do tempo, as contestações à legitimidade da ação americana tendem a aumentar, assim como a sensação de que o Brasil, assim como outros países da região, estão tão vulneráveis a um ataque americano quanto a Venezuela chavista.
Nesse misto de análise com “wishful thinking” palaciano, o discurso de defesa da soberania também ganhará força. Essa carta também está na manga, no caso de uma esperada tentativa de interferência de Trump no processo eleitoral.
Gleisi no embate político
A ministra Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais) foi escalada para fazer o embate com a oposição. Ela usou as redes sociais, como de costume, para criticar os aplausos dados por governadores-presidenciáveis, como Ratinho Jr. (Paraná) e Tarcísio de Freitas (São Paulo) ao ataque americano.
Sobre o governador paulista, lembrou em sua postagem que ele “vestiu o boné de Trump, comemorou o tarifaço e apoiou a traição de Eduardo Bolsonaro à pátria”.
Enquanto Tarcísio volta a se assanhar como presidenciável após a ação americana na Venezuela, um importante estrategista ligado ao PT afirma que a militância está pronta para retratar nas redes o governador paulista como um “cordeirinho” de Trump.
Mas essa mesma fonte afirma que a tática de Lula, no debate eleitoral, deveria ser outra: deixar o assunto de lado o mais rápido possível e focar nas entregas do governo e em temas que realmente importam para a população, como a economia, os programas sociais e encontrar um discurso convincente para a segurança pública.

