Para ex-embaixador, portaria do Ministério da Justiça tenta evitar que situação na região deteriore após Nicolás Maduro ser capturado pelos EUA; pasta diz que portaria se trata de renovação de medida antiga Política, Estados Unidos, Ricardo Lewandowski, Venezuela CNN Brasil
O diplomata e ex-embaixador Rubens Ricupero disse em entrevista à CNN Brasil que a portaria do governo federal que autoriza o uso da Força Nacional nas cidades de Boa Vista e Pacaraima, em Roraima, na fronteira com a Venezuela, pode ser uma medida preventiva para evitar que a situação se “deteriore”.
Assinada pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, que deixa a pasta nesta sexta-feira (9), a portaria foi publicada no DOU (Diário Oficial da União) nesta quinta-feira (8), poucos dias após o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, serem capturados em uma invasão dos Estados Unidos ao território do país.
“Não conheço as razões que motivaram a portaria, mas imagino que tenham caráter preventivo para o caso de que a situação na Venezuela se deteriore”, disse Ricupero.
O diplomata ainda declarou que não parece ser uma deterioração do caso neste momento, mas completou: “A verdade é que a saída de Maduro ainda não redundou em mudança de regime. A situação segue indeterminada e o futuro é incerto.”
O Ministério da Justiça enviou uma nota à CNN Brasil dizendo que a portaria se tratava da renovação de uma medida antiga que autorizava o uso da Força Nacional na fronteira com a Venezuela. Em nenhum momento a pasta diz que a decisão foi, ou não, tomada devido aos recentes acontecimentos no país vizinho.
Para Ricupero, no entanto, não há “outra razão convincente [para o uso da Força Nacional na fronteira com a Venezuela]”.
“Não esqueça que, segundo o noticiário, a Colômbia mobilizou forças significativas na sua fronteira com a Venezuela, que é de longe muito mais importante e acessível que a nossa, localizada em zona remota e pouco habitada.”
Na opinião do ex-embaixador do Brasil na Itália, a resposta do Ministério da Justiça visa não preocupar a população à toa.
“Ninguém quer parecer como alarmista até que a situação realmente piore, o que pode, ou não, acontecer”, finaliza.
O governo de Roraima foi quem solicitou a presença da Força Nacional. Procurada pela CNN Brasil, a administração estadual não retornou até o momento desta publicação.
Veja nota do Ministério da Justiça:
O Ministério da Justiça e Segurança Pública informa que autorizou a renovação do emprego da Força Nacional de Segurança Pública nos Municípios de Boa Vista e de Pacaraima, no Estado de Roraima, onde atua de forma contínua desde 2018, atendendo à solicitação do Governo do Estado, em resposta à demanda dos órgãos de segurança pública locais, para atuar em atividades e serviços imprescindíveis à preservação da ordem pública, da incolumidade das pessoas e do patrimônio, nos termos da Portaria nº 1.127/2026.
Cabe ressaltar que, no Estado de Roraima, a Força Nacional atua sob coordenação da Casa de Governo no Estado, em apoio à Casa Civil da Presidência da República, com emprego na Terra Indígena Yanomami e em áreas limítrofes, nos termos da Portaria nº 1.022/2025, na execução do Plano de Desintrusão e de Enfrentamento da Crise Humanitária, incluindo ações de combate a queimadas e a crimes ambientais, conforme estabelecido pelo Decreto nº 11.930, de 27 de fevereiro de 2024.
É importante destacar que a Força Nacional mantém presença no Estado de Roraima com 22 frentes de emprego em andamento, sempre atuando como força de apoio, em caráter complementar, no âmbito do Programa de Cooperação Federativa.
Ressalta-se, ainda, que o emprego da Força Nacional ocorre sob demanda dos órgãos apoiados, federais e estaduais e que por questões de segurança, não são divulgados quantitativos de efetivo empregados nas operações em curso.
A atuação da Força Nacional concentra-se no reforço à segurança pública, na proteção de populações vulneráveis, no apoio às ações de ordem pública, bem como no combate a ilícitos ambientais, contribuindo para a estabilidade e a segurança da região.

