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Veneno de vespa abre nova frente na busca por terapias contra o Alzheimer 

Última atualização: 14 de janeiro de 2026 12:43
Published 14 de janeiro de 2026
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Estudo brasileiro explora uso de substâncias para desacelerar a neurodegeneração em meio ao envelhecimento da população  Saúde, Alzheimer, Demência CNN Brasil

Contents
Leia MaisComo age o Leqembi, novo remédio para Alzheimer aprovado pela AnvisaVeja cinco dicas para reduzir o risco de desenvolver doença de ParkinsonAlzheimer pode causar invalidez no trabalho? EntendaDécadas de trabalhoLimitações a serem superadasEnvelhecimento da população

Um projeto interdisciplinar desenvolvido na UnB (Universidade de Brasília) dá fôlego à busca por tratamentos capazes de desacelerar o avanço da doença de Alzheimer. Os pesquisadores têm investigado uma terapia a partir do uso de duas moléculas inspiradas no veneno do marimbondo-estrela (Polybia occidentalis), um tipo de vespa brasileira.

Em estudo publicado no início de 2025 na revista Proteins, as substâncias octovespin e fraternina-10 demonstraram capacidade de interferir na formação das placas de proteína beta-amiloide no cérebro. Quando em excesso, elas se acumulam entre os neurônios, causando inflamação e interrompendo a comunicação dessas células. Em longo prazo, isso leva à morte neural e ao declínio cognitivo, o Alzheimer.

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Desfazer essas formações tóxicas, por meio das chamadas terapias antiamiloides, poderia ser um caminho promissor. E é justamente para onde cientistas de vários países têm olhado. “As terapias antiamiloides são o que temos de mais novo atualmente”, explica o neurologista Ivan Okamoto, do Einstein Hospital Israelita. “No Brasil, elas só foram aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária em abril deste ano [2025], e o tratamento continua restrito ao medicamento donanemabe, comercializado como Kisunla.”

Décadas de trabalho

A investigação com peptídeos derivados de marimbondos já dura 25 anos, e começou com a neurocientista Márcia Mortari, do Instituto de Biologia da UnB. Mortari observou que a picada desses insetos era capaz de paralisar pequenas presas, indicando que o veneno continha substâncias ativas no sistema nervoso.

Mortari iniciou um longo processo de isolamento e caracterização dos diferentes compostos presentes no veneno, o que permitiu identificar moléculas de grande interesse farmacológico. O primeiro peptídeo isolado, a occidentalina-1202, mostrou-se capaz de prevenir convulsões, e um de seus derivados, a neurovespina, apresentou efeitos anticonvulsivantes e potencial de prevenir doenças neurodegenerativas, como Parkinson.

A partir dessas descobertas, versões modificadas da occidentalina-1202 foram desenvolvidas, originando a octovespina. Estudos experimentais conduzidos pela professora Luana Camargo, do Instituto de Psicologia da UnB, sugerem que a molécula poderia prevenir as primeiras alterações fisiológicas associadas à doença de Alzheimer: as placas beta-amiloides. Sabe-se que essas estruturas começam a se formar no cérebro cerca de 10 a 15 anos antes dos primeiros sintomas clássicos do Alzheimer, como confusão mental e esquecimento. Portanto, se confirmada sua eficácia em novos estudos, a octovespina poderia ser utilizada em uma fase muito inicial da doença, diminuindo os riscos de complicações severas.

Outra molécula desenvolvida foi a alzpeptidina, que combina características da octovespina e da fraternina-10, um peptídeo também derivado de veneno de vespa. Esse híbrido foi concebido para potencializar as propriedades terapêuticas observadas nos peptídeos naturais. “A abordagem possibilitou explorar, de forma rápida e controlada, diferentes modificações estruturais, identificando quais delas podem tornar os compostos mais estáveis, mais seletivos e mais eficazes”, afirmam os autores, em nota à Agência Einstein.

A partir de simulações computacionais, os professores Ricardo Gargano e Yuri Alves de Oliveira Só, do Instituto de Física da universidade, verificaram que os peptídeos provocam alterações estruturais importantes nas placas proteicas, indicando forte potencial de desagregação. “Testes envolvendo a octovespina mostraram que, quando administrada diretamente no cérebro de camundongos, ela não apenas diminui a aglomeração da beta-amiloide, mas também reduz sintomas da doença, como o esquecimento. Esta é a principal diferença entre os derivados do veneno do marimbondo e os medicamentos disponíveis hoje”, destacam os cientistas.

Limitações a serem superadas

Tanto a octovespina quanto a fraternina-10 conseguiram postergar ou reduzir a formação de aglomerados proteicos nas simulações computacionais e in vitro. Nos testes com animais, entretanto, os resultados foram menos expressivos. A fraternina-10, por exemplo, não conseguiu repetir o feito de reverter déficits cognitivos em camundongos com alterações neurais semelhantes àquelas causadas pelo Alzheimer nos seres humanos.

Isso se deu porque as simulações simplificaram o processo de desagregação das placas beta-amiloides. Da mesma forma, como os testes in vitro são feitos em condições extremamente controladas, eles não refletem a complexidade do ambiente biológico em um organismo vivo. Por isso, é esperado que surjam diferenças quantitativas entre os resultados obtidos em simulações, experimentos de bancada e estudos in vivo.

Apesar dessas limitações, as simulações mostraram forte concordância com os experimentos. “Isso garante previsibilidade, orienta a interpretação dos resultados biológicos e, sobretudo, fornece bases sólidas para o planejamento racional de novos fármacos, guiando o desenho de peptídeos mais eficientes para as próximas fases da pesquisa”, avaliam os autores.

Mesmo com os avanços alcançados até agora, ainda serão necessários alguns anos para que as substâncias derivadas do veneno de marimbondo possam avançar para etapas pré-clínicas ampliadas ou ensaios clínicos em humanos. O próximo passo envolve novos estudos em modelos animais, especialmente para determinar qual é a via de administração mais adequada, já que a aplicação direta no cérebro não é uma opção viável em termos clínicos.

Também serão necessários estudos aprofundados de dose, toxicidade, segurança e farmacocinética para assegurar que esses compostos possam ser administrados sem riscos. Somente após a consolidação dessas informações será possível considerar a transição para testes em humanos.

Envelhecimento da população

Em um cenário de inversão da pirâmide demográfica brasileira — ou seja, de crescimento do número de idosos e diminuição da quantidade de crianças —, o Alzheimer aparece como uma crise de saúde coletiva iminente.

Com o avançar da idade, é comum que ocorram lapsos de memória pontuais, como esquecer de pagar uma conta ou confundir a data de um evento. Isso é esperado, e não deve ser motivo de preocupação. “Porém, quando essas ocorrências tornam-se frequentes e começam a prejudicar a segurança do indivíduo e de seus familiares, como se perder no caminho para casa ou deixar a panela no fogo desatendida, é recomendado buscar ajuda profissional para uma investigação do caso”, pontua Okamoto.

Além de conversas com o paciente e seus familiares, o médico pode iniciar as buscas por biomarcadores da demência, como os depósitos da proteína amiloide no cérebro, por meio de um exame de imagem PET-CT amiloide.

Em 2019, havia 1,8 milhão de pessoas com doenças neurodegenerativas no Brasil, segundo o Relatório Nacional sobre a Demência, publicado em 2024 pelo Ministério da Saúde. A estimativa é de que esse número salte para 5,7 milhões de casos em 2050. Para além da saúde, isso se reflete em questões sociais, políticas e econômicas. “Como nem todo mundo tem condições de pagar por um serviço de cuidado especializado, algumas pessoas terão que sair do mercado de trabalho formal para poder cuidar de seus avós, pais e tios”, ilustra o médico do Einstein.

Na prática, isso pode gerar sobrecarga física, emocional e financeira para amigos e familiares da pessoa diagnosticada com Alzheimer. Daí a importância dos investimentos direcionados ao tratamento da doença. “A terapia antiamiloide pode não ser uma cura para o Alzheimer, mas é um tratamento que ajuda a frear o avanço da doença, estabilizando o cenário de degeneração cognitiva e mantendo as capacidades do indivíduo de aprender habilidades novas, socializar e ter certa autonomia”, avalia Ivan Okamoto. “Mesmo sem melhora do quadro, se após um ano de tratamento o indivíduo não apresentar piora nos sintomas, isso já é uma resposta positiva.”

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